Lange em prosa memorialista
Norah Lange (1905-1972) é descrita como personagem exuberante do ambiente vanguardista dos anos 20/30, em Buenos Aires. Nesse período, colaborou nas revistas “Martín Fierro” e “Proa”, convivendo com Jorge Luis Borges e Oliverio Girondo, com quem acabou se casando. Sua estreia solo deu-se em 1925, com o livro de poesia “La Calle de la Tarde”, cujo prefácio, de Borges, é o que mais se comenta dele. Nos últimos tempos, invertendo a tendência, o nome de Lange tem ocupado páginas crescentes nas biografias de Borges. Em Borges, a Life (2004), um professor de Oxford, Edwin Williamson, especula que Borges deve à decepção do amor não correspondido o abandono da poesia e os primeiros passos na ficção que o consagraria. Não deveria repetir aqui a bobagem, não fosse para acrescentar que os atos benéficos de Lange em relação à literatura não dependem do estrago que tenha feito nos corações de Girondo ou Borges. Basta para demonstrá-lo a bela prosa memorialista de Cadernos de infância (Record, 208 pp., R$ 36 – Trad. Joana Angélica DÁvila Melo) (1937). O livro se desdobra por 82 capítulos curtos, cada um deles praticamente autônomo em relação ao outro, quase como se o conjunto do livro fosse uma sequência de contos bem amarrados.
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