Em nome do pai e da literatura
Ribamar, nova obra de ficção de José Castello, desafia o silêncio. Em nome do pai e da literatura
Ribamar é o nome do pai e do livro de José Castello. “Como libertá-lo do nome, para que você possa apenas ser?”, pergunta o narrador num esforço de fazer do próprio pai um personagem e enfim dissociá-lo do silêncio. Diante do pai em via de morrer, a busca começa como literatura: “Com o manto das palavras, cubro seu corpo de velho”. Não cabe mais falar de uma relação, mas de duas ausências: cada um ausente do outro. Saber que essa história se repete desde que o mundo é mundo não consola; é preciso investigar, por mais que a opacidade não ceda. Acima de tudo ficção, a escrita de Castello, que é crítico literário e colaborador do Valor, convoca diferentes gêneros e estilos, do jornalismo ao ensaio, mas se sustenta basicamente sobre dois eixos, o do pai e o da literatura. No primeiro está uma busca biográfica que parte do verdadeiro Ribamar e envolveu de fato uma pesquisa como a referida no livro Ribamar (Bertrand Brasil, 280 pp., R$ 37): em 2008, o autor viajou à cidade de Parnaíba, no Piauí, em busca de traços deixados pelo pai numa paisagem castigada por um calor atordoante. O eixo da literatura é guiado pela obsessão que o narrador nutre em relação a Franz Kafka. A ponte entre os dois é a “Carta ao Pai” de Kafka, com que José presenteou Ribamar no auge da incomunicabilidade entre eles.
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