
As feiras de livro internacionais, para além de lugares de aquisição e venda de direitos, são ponto de encontro de editores e demais agentes da indústria do livro para trocar experiências, conhecer novas tendências e, a partir disso, investir e inovar em nossos negócios.
A Feira de Buenos Aires, para quem não conhece ainda, é uma excelente feira para começar o trabalho de internacionalização do catálogo. Por ter uma área dedicada aos profissionais, mas também ser aberta ao público por mais tempo, acaba sendo possível uma troca maior. Já estive lá três vezes. Nesta 47ª edição da Feira de Buenos Aires, além de ver as tendências do mercado latino, também participei como painelista de uma das sessões na CONTEC, evento organizado pela Feira de Frankfurt.
A feira é vasta e convidativa e os “hermanos” têm um jeitinho bem parecido com o nosso. Se na Feira de Frankfurt a rigidez da agenda e das reuniões de 30 em 30 minutos é o que dita nossos (e todos os outros) passos, em Buenos Aires, caminhamos mais ao ritmo de uma milonga. Se, no percurso da reunião com você o editor vir algo que desperte interesse, tenha certeza, ele pode se atrasar um pouco. Ou seja, todas as lições sobre rigidez de horário que aprendemos em Frankfurt, em Buenos Aires acabamos flexibilizando. A sala de “Derechos” também possibilita que muitos “curiosos do livro” venham apresentar seus trabalhos. Mas, ainda assim, vale muito a experiência.
Este ano decidi ir com uma agenda mais livre, pois queria andar na feira e ver o que está sendo publicado na América Latina. Logo que cheguei vi um “Espacio de diversidad funcional y discapacidad” e no segundo dia fiquei muito tempo no “Espacio de diversidade sexual y cultural”. Acreditem, a Oficina Raquel trará muitas coisas interessantes, potentes e diversas para o Brasil.

Ouvir a editora da Geórgia Tina Mamulashvili falar sobre a sua realidade tão diferente da nossa e dos hermanos - tanto do ponto de vista demográfico, quanto a localização geográfica; tanto no que diz respeito a números, como de realidade histórica – me faz pensar quantos mercados existem no que chamamos de mercado editorial. Isso vale para o nível internacional, mas, claro, para o nacional também.

Nosso objetivo, com isso, é possibilitar que em nosso escritório possamos estar com mais tempo para cuidar deste mundo que é fazer e promover os livros. E, assim, a operação de venda e logística fica com a distribuidora, que tem expertise no assunto e atende outras editoras. Isso significa uma economia de frete e de horas de trocas de emails cobrando acertos, por exemplo. Mas, novamente, não se enganem, dentro do mercado há muitos modelos, dentro de uma editora pequena também. Nosso esforço é para que este, em um ano, seja o que dê mais resultado – sem falar de compras de governo e corporativas – mas ainda não é a realidade. Ou seja, compartilho como vocês uma experiência que estamos fazendo, vislumbrando ter mais eficiência em nossos processos internos e indispensáveis. Falar em sustentabilidade, parece-me, que é também aprender a gerenciar tempo e recursos para termos maior produtividade.
POD como uma forma de preservação no Planeta, também foi um tema. Mas, confesso que, embora eu seja uma entusiasta do modelo de Print On Demand, e dividisse a mesa com a fundadora e diretora da Liber Express, encaro o modelo como mais uma forma de receitas e divulgação dos livros. (Falo aqui de novo dos muitos modelos dentro de uma mesma empresa). Ou seja, não acredito neste modelo com um único modelo, visto que o livro precisa estar exposto ainda para despertar interesse no leitor. Tampouco entendo o POD como sendo a solução para que nosso meio ambiente seja livre de monóxido de carbono. Entender a real demanda dos livros sim e perceber se tudo que está sendo impresso precisa mesmo ser impresso é o cuidado (com o nosso negócio e o nosso ambiente) que precisamos ter.
E, por isso, hoje, dentro de todas as muitas dificuldades que é empreender com livros no Brasil, acredito que a escolha por centralizar a operação de venda pode ser um caminho que também seja melhor para o ambiente visto é melhor meus livros em um mesmo caminhão que outras editoras, do que em um carro próprio. Uso um operador logístico também para armazenagem dos produtos e, assim, nosso endereço tijucano é um espaço para o fazer o editorial, trocar ideias e tomar cafezinho e comer bolo com autores, ilustradores e parceiros. Enfim, apostamos por aqui em uma melhor gestão de recursos e processos.
A outra linha de desenvolvimento da minha abordagem, foi a distribuição de conteúdo. Afinal, uma editora é uma empresa que trabalha com conteúdo que precisa estar viabilizado para o leitor de todos os modos possíveis. Não só por questões de acessibilidade, no caso do áudiobook, ou do Epub 3, mas porque precisamos entender que existem de fato leitores que elegem outros formatos como preferidos. Além disso, as bibliotecas digitais são uma realidade no que diz tange à divulgação de conteúdo para o público escolar. Nós editores precisamos estar atentos a isso, pois é um possibilitador para que nosso conteúdo chegue a mais e mais pessoas, gerando receita. Não é este o intuito do nosso trabalho? Para nós, da Oficina Raquel, seja físico, áudio, ebook, queremos que nossos livros cheguem a um maior número de leitores.

A propósito, este foi outro acerto da organização, deixar a operação com dois livreiros, ao invés de uma feira com várias editoras. (E que coaduna com o que eu falava na Contec sobre o meu modelo de distribuição. Isso traz sustentabilidade para pequenos livreiros!) A Casa da Árvore, minha vizinha tijucana e a Belle Epoque, o sebolivraria localizada no fígado do Méier, precisam de inciativas como estas para que possam ter fluxo e melhores resultados. Se queremos mais livrarias em mais lugares da(s) cidade(s) precisamos ter mais eventos e soluções neste sentido. Para mim, como editora, foi ótimo ver meus livros expostos, sem precisar ter um vendedor próprio e uma logística dedicada a isto.

Amante de carnaval e do samba, é ótimo para mim ver esta iniciativa crescer. Oxalá cresça ainda mais e vá para outras escolas de samba. A Portela, que nos anos 70 foi a primeira escola de samba a usar o agogô de 4 bocas, dando mais volume ao som, chega ao seu Centenário abrindo alas com seu Departamento Cultural para iniciativas pró livro e pró leitura. No último dia da Fliportela foi inaugurada uma Biblioteca. Como ativista do livro, a mais nova biblioteca de Madureira, contará com uma sala multimídia com computadores e também será voltado para a exibição de filmes, realização de workshops e palestras, além de contação de histórias. O espaço contará ainda com um sistema on-line para o empréstimo de livros, os quais poderão ser reservados pelo usuário e pegos, aos sábados, no próprio espaço. O equipamento tem a apadrinhamento da Velha Guarda da Portela, que promete prestigiar o local para dividir histórias e ensinamentos com público. (Um viva à celebração da oralidade!). Para que a história e o legado da azul e branca seja sempre lembrado, outros segmentos da escola também participarão das atividades biblioteca da Portela.
Entusiasta de que os livros estejam em todos os lugares, quero mais que o povo do livro caia no samba e que o mundo do samba se aproprie de mais e mais livros. Afinal, precisamos ser um povo leitor.
