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Caderno de receitas

Fotografias em livros de receitas: elas são mesmo indispensáveis?

27/01/2012


Há muito tempo eu não dava tanta risada com um texto escrito sobre um livro de cozinha. Foi no Book Riot, aonde cheguei pelo Huffington Post, e desde já faço um aviso para quem quiser se aventurar pelo link: ele contém imagens que podem ser prejudiciais a estômagos sensíveis – como diz a autora, Liberty Hardy, “algumas fotos farão você questionar a existência de Deus”. Mas Be bold with bananas, lançado pela Crescent Books na década de 1970, merece ser conhecido por todo mundo que trabalha com livros de receitas para, no mínimo, servir como antiexemplo.
 
Ok, os anos 70 não foram exatamente um primor em matéria de bom gosto culinário, e isso se refletia nas imagens usadas para ilustrar os livros do gênero. Basta fazer uma pesquisa no Google pelos fascículos Bom Apetite e Cozinha de A a Z para constatar que era tudo meio amarelado, tudo meio sem forma, havia um excesso de produção e comidas enfeitadas demais. De vez em quando, porém, mesmo em títulos recentes eu me deparo com algumas escolhas, digamos, menos felizes. Outro dia fiquei surpresa ao ver a foto de um bolinho cercado por uma assustadora calda verde, do tipo que não incentiva ninguém a pegar o avental e botar a mão na massa.
 
Já ouvi mais de um editor dizendo que livro de cozinha sem imagem não vende. Por isso, boa parte das empresas acaba dando preferência à compra de títulos estrangeiros, que já vêm com o pacote completo de texto e foto, e descartam lançar o trabalho de autores nacionais porque teriam de investir muito na produção visual. Curiosa, fiz uma enquete nada científica com alguns amigos que também adoram cozinhar e garimpar títulos sobre o assunto: a sensação em comum é a de que fotos ajudam, mas não fazem diferença na hora de decidir sobre a compra. Entre nossas obras prediletas – daquelas que vivem manchadas e meio despencando, de tanto uso – estão Cozinha de bistrô (Ediouro, 250 pp., R$ 70,90 – trad. Sônia Maria Aizen e Naumin Aizen), da Patricia Wells; Cozinha mediterrânea (Companhia das Letras, 432 pp., esgotado – trad. Helena Londres), da Paula Wolfert; Fundamentos da cozinha italiana clássica (WMF Martins Fontes, 700 páginas, R$ 75 – trad. Jefferson Luiz Camargo) e La cucina (Companhia das Letras, 600 pp., esgotado – trad. Helena Londres), ambos da Marcella Hazan; Cozinha francesa regional (Companhia das Letras, 624 pp., R$ 92,50 – trad. Helena Londres), da Elizabeth David, e o Dean & DeLuca cookbook (Random House, 564 pp., US$ 27,95), de David Rosengarten, Joel Dean e Giorgio DeLuca, um favorito na minha casa. Nenhum desses livros tem uma única imagem dos pratos apresentados.
 
É evidente que diminuir a quantidade de fotos contribuiria para baixar o custo do livro e o preço final para o leitor. A editora daquele bolinho verde gastou para produzir a imagem: comprou os ingredientes, contratou um estúdio, pagou o fotógrafo... e, depois, cobrou do cliente. Eu me pergunto se todas as receitas de um livro de cozinha precisam mesmo ser ilustradas. Será que limitar essa necessidade a alguns pratos mais bacanas, ou que realmente pedem um guia visual para dar bom resultado, diminuiria tanto assim o interesse dos compradores? Acredito que, para quem cozinha de verdade, para quem usa os livros do gênero, valores como clareza e bom texto (receita também precisa ser bem-escrita), além de um papel decente (vamos desistir de uma vez por todas do couché com brilho?), contam mais do que qualquer outra coisa. Vale lembrar que um projeto gráfico caprichado e belas ilustrações – como as de Paulo Pasta para o La cucina, – ajudam a agradar esse público exigente, disposto a pagar um bom dinheiro por obras que geralmente ganham lugar de honra dentro de casa e que acompanham seus donos pela vida inteira.
 
A Penguin britânica parece ter encontrado uma solução para os livros do Jamie Oliver: alguns anos depois do lançamento de cada título, sai o paperback, às vezes por quase a metade do preço original (no site da editora, a versão popular do Jamie’s dinners custa 16,99 libras, contra 30 libras da edição com capa dura). Se bem que, no caso do adorável Oliver, de quem sou fã, cortar custos com fotos seria facílimo. Bastaria que o chef deixasse de querer aparecer tanto em seus próprios livros – entre as 360 páginas de Jamie’s America, um de seus volumes mais recentes, o loirinho dá o ar de sua graça em nada menos do que 54 delas.

Gabriela Erbetta, leitora há mais de 30 anos e jornalista há mais de 20, trabalhou nas redações de Veja São Paulo, Época Online, GuiaSP e Guia Quatro Rodas. É autora de O barato de Nova York (Best Seller), O livro dos amuletos e O livro das ervas, especiarias e pimentas (ambos da Publifolha) e tradutora de Nigella express, Nigella verão (ambos da Ediouro) e Julia’s kitchen wisdom (Seoman). Seu e-mail é gabriela.erbetta@gmail.com

A coluna Caderno de receitas fala sobre livros de cozinha: dos títulos editados no Brasil aos bons (e maus) exemplos estrangeiros; do trabalho envolvido nas traduções; da migração para as plataformas digitais e de muitos outros assuntos saborosos ligados a esse universo. Os textos de Gabriela Erbetta vão fechar a semana uma vez a cada quinze dias.

“Eu associo o deslocar-se à própria experiência da escrita e da leitura: ler ou escrever para sair de onde se está, para ir a algum lugar, mesmo que não saibamos que lugar é esse.”

Alberto Martins Escritor e artista plástico brasileiro

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