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Os arquivos de Shatzkin

Os caminhos alternativos para se publicar é uma ameaça aos agentes?

03/03/2015


O jornal britânico The Guardian informa que as cinco maiores editoras do Reino Unido estão agressivamente atrás de autores que queiram procurá-las diretamente sem passar por agentes. Os exemplos citados fazem com que isso pareça mais um “enfiar o dedo na água para testar a temperatura” do que uma “mudança na cadeia de valores”.A divisão Tinder Press da Hachette está organizando “uma quinzena de envios de originais”. O diretor editorial do selo da Random House, Jonathan Cape tuitou um pedido de envio de originais uma vez e recebeu 5 mil. E o novo selo Borough Press da HarperCollins está organizando sua segunda “temporada aberta” anual de originais. Eles publicaram um livro tirado dos 400 originais enviados no ano passado.
 
A mesma matéria também reconhece que os agentes estão mudando seus processos (e isso já vem acontecendo, como tínhamos notado em 2011), apontando especificamente para um programa de redação criativa organizado pela agência Curtis Brown que “descobriu 15 escritores novos” (isso significa, supostamente, que conseguiram contratos para eles). Também é verdade que muitos sucessos autopublicados, incluindo Hugh Howey, usam agentes literários para ajudá-los a chegar a editoras fora de seu mercado ou idioma.
 
A escritora que aparece na matéria, Andrea Bennett, foi contratada pela HarperCollins depois de não conseguir nada ao enviar originais a “uma dezena” de agentes e só receber cartas de rejeição, sendo que algumas chegaram tão rápido depois do envio que ela sentiu que o material nem tinha sido lido.
 
As editoras citadas na matéria, não é surpresa, indicaram que o interesse delas era conseguir talentos promissores que os agentes poderiam estar deixando passar. Mas com uma das editoras lutando com 5 mil originais (“três são realmente promissores”, dizem, e não tenho certeza se eles veem a mesma ironia que eu nesta declaração) e outra repetindo o exercício quando, no ano passado, publicou apenas um dos 400 recebidos, os dados sugerem que a curadoria de agentes ainda representa um serviço valioso para as editoras.
 
Claro, há um elemento financeiro compensador para editoras que faz com que o trabalho de encontrar livros sem agentes valha a pena. Eles, quase com certeza, podem fazer acordos mais vantajosos do que fariam com um agente. Não só conseguem contratar o livro por um adiantamento menor (um ponto bastante reforçado na matéria), também é mais provável que tenham os direitos mundiais. A legenda de uma foto sugere que o romance de Bennett que a HarperCollins contratou foi vendido para seis mercados. Se não forem todos em inglês, esta é uma oportunidade que a maioria dos agentes teria negado à editora.
 
Um autor sem agente também significa custos e complicações a uma editora, que teria que assumir a função do agente de explicar o processo prolongado e às vezes complexo de publicar um livro. Este post da HarperCollins, dizendo que somente seu novo selo digital aceita “manuscritos não solicitados” é normal. Contém linguagem que os protege, rejeitando explicitamente qualquer responsabilidade por ler, comentar ou até devolver os manuscritos não solicitados que forem enviados. (Isso é quase certamente menos complicado do que foi no passado quando todos os envios eram em papel, não arquivos. Um amigo lembrou um autor que queria processar uma grande editora há 15 anos, porque ele, estupidamente, tinha enviado sua única cópia de um manuscrito que foi “perdido” pela editora.) A exceção que a HarperCollins cita para seu primeiro selo digital está baseado em um post aparentemente muito mais antigo do site da Penguin, com partes da DAW, seu selo de ficção científica.
 
Mas mesmo se uma editora conseguisse trabalhar com sua “pilha de baboseira” (o termo há muito usado para originais sem agentes e não solicitados) de forma eficiente, poucos, se é que algum, poderia chegar a ser um best-seller, o que coloca a questão se valeria a pena o tempo gasto.
 
Nada na matéria do Guardian me sugere que meu conselho aos aspirantes a autores deveria mudar. Sempre digo a eles para conseguir um agente se puderem. (E também digo para usarem a base de dados no Publishers Marketplace para encontrar o agente certo.) Nenhum agente trabalha com probabilidades tão baixas como 1 em 400 ou 3 em 5 mil com seus originais. Alguns dos originais que se perderam nesses números poderiam ter sido vistos de forma diferente se viessem de um agente estabelecido. Também é bastante provável que estes originais que foram agenciados poderiam ser melhorados pelo agente antes do envio. Agentes não fazem apenas curadoria. Eles também editam.
 
Até a autora principal na matéria do Guardian não prova que a situação está mudando. Sim, ela conseguiu um acordo com HarperCollins depois que alguns poucos agentes a rejeitaram. Mas será que, depois de enviar o original a outros agentes, ela não poderia terminar conseguindo uma representação que levaria a um acordo melhor do que o conseguido? Ou, de outra forma, quais as chances de que um agente competente não tivesse conseguido um bom contrato com o HarperCollins? E então, quais são as chances de que, sendo uma autora com agente, ela tivesse conseguido uma oferta melhor do que a atual?
 
Paciência aqui poderia ter valido a pena.
 
Como há livros autopublicados que conseguiram sucesso comercial, as editoras estão bem conscientes de que o funil para projetos gerenciado por agentes não está entregando todos os livros que eles poderiam vender. Quase certamente nunca conseguiram, mas, sem autopublicação, os livros que eles perderam nunca tiveram a chance de se provar no mercado sem eles. Agora estão conseguindo.
 
Esta é a grande mudança para autores. A autopublicação pode ser um caminho para chegar a uma editora ou a um agente tanto quanto um caminho para chegar diretamente aos leitores. Para estes autores que se sentem confortáveis realizando as tarefas além da autoria – edição, criação de capa, limpeza do texto, criação dos metadados e publicação através de vários portais – o novo paradigma pode ser uma alternativa válida para o processo trabalhoso de encontrar um agente e depois deixar que este consiga um contrato de publicação.
 
E está claro que tanto editoras quanto agentes reconhecem que há alternativas ao padrão histórico e que eles vão perder bons projetos de autores extremamente capazes se não se tornarem mais acessíveis aos aspirantes a autores.
 
Mas mesmo um aumento exponencial no número de sucessos autopublicados ou, agora, no número de autores que vão diretamente às editoras sem agentes, não vai mudar as realidades da edição de livros. O dinheiro verdadeiro quase sempre vai ao autor com agentes cujo trabalho será vendido a uma editora grande. Todo o resto ainda é, de uma perspectiva geral para a indústria, uma atração secundária.
 
Tradução: Marcelo Barbão

Mike Shatzkin tem mais de 40 anos de experiência no mercado editorial. É fundador e diretor-presidente da consultoria editorial The Idea Logical Co., com sede em Nova York, e acompanha e analisa diariamente os desafios e as oportunidades da indústria editorial nesta nova realidade digital. Organizada anualmente a Digital Book World, uma conferência em Nova York sobre o futuro digital do livro.

Nos Arquivos de Shatzkin, o consultor novaiorquino aborda os desafios e oportunidades apresentados pela nova era digital. O texto de sua coluna é publicado originalmente em seu blog, The Shatzkin Files (www.idealog.com/blog).

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