Que indie foi esse?
PublishNews, Gustavo Faraon e João Varella*, 02/04/2018
Gustavo Faraon e João Varella escrevem pela primeira vez para o Publishnews e contam detalhes do Indie Book Day

O Indie Book Day pegou mesmo por aqui. Na segunda edição em que a iniciativa se espalhou pelo Brasil, houve mais atenção e participação dos leitores, grande engajamento das editoras, maior interesse das livrarias e muito mais espaço nos veículos, nos blogs e instagrams dedicados aos livros. Mas se o nome em inglês atrapalha, o papo sobre bibliodiversidade parece difícil e o conceito de editor independente é confuso até para os próprios, então como?

Este ano, resolvemos esclarecer de cara duas coisas que geraram dúvidas e até certo desconforto em editoras e livrarias no ano passado, primeiro ano em que batemos bumbo em torno da data:

Primeiro: a iniciativa não tem dono, ela é livre e ninguém precisa de permissão para nada, como é (ou deveria ser) toda iniciativa independente.

Segundo: a iniciativa não tem regras, todo mundo pode participar se apropriando da maneira que quiser e criando tantas atividades ou formatos quanto bem entender. A hashtag #indiebookday é mero instrumento para seguir o diálogo global.

Afinal, foi com esse espírito plural que o editor alemão Daniel Beskos criou a coisa toda, lá em 2013

Com isso tudo bem entendido, foi notável como neste segundo ano o pessoal se sentiu confortável para participar, livre para inventar e conseguiu tirar ótimo proveito da data. O Brasil foi o terceiro país mais participativo no uso da hashtag #indiebookday, com 9% das portagens públicas analisadas pela ferramenta Keyhole. À frente ficaram Alemanha, com 49% das postagens, e Reino Unido, 15%.

Com entidades importantes como a Aliança Internacional de Editores Independentes (que congrega 550 editores de 52 países) oficialmente apoiando a função, outras entidades se sentiram confortáveis em divulgar a iniciativa internamente para os seus associados (caso da LIBRE - Liga Brasileira de Editoras, que ainda promoveu uma ação em seus canais no qual editores associados foram fotografados lendo livros de outras casas) ou mesmo participar publicamente, postando uma imagem com a hashtag no dia 24 de março (caso da Câmara Brasileira do Livro). Isso fez com que a participação de editores fosse maior. Assim como no ano passado, em 2018 também houve coincidência de datas e o #indiebookday aconteceu em meio ao Plana Festival, o maior evento de arte gráfica da América Latina, que chegou em sua sexta edição. O belo imóvel da Cinemateca Brasileira que recebeu o evento podia ser reconhecido em muitas fotos em comemoração à data.

Livraria Taverna
Livraria Taverna

Talvez o crescimento mais visível de um ano para o outro, entretanto, tenha sido da participação de livreiros. Antes mesmo de começarmos qualquer movimentação, mal havia terminado o mês de janeiro e já havíamos recebido um e-mail da Blooks: “e aí, meninos, não vai rolar o Indie Book Day?”. À medida que começamos a espalhar a notícia, as adesões só cresceram. E a criatividade do pessoal em bolar maneiras diferentes de participar também chamou atenção.

Banca Tatuí
Banca Tatuí

Livrarias como as três lojas da Blooks e a Leonardo Da Vinci aproveitaram o #indiebookday para fazerem ações de desconto e reafirmar a independência editorial e a curadoria como parte de seu DNA. Redes maiores como a também carioca Travessa montaram espaços de destaque para os indies como forma de celebrar e valorizar a diversidade editorial. O booktruck Rizoma, em São Paulo, resolveu fazer uma festa - com banda de música e tudo. A também paulistana Banca Tatuí deu desconto para atrair os aficionados e colecionadores de publicações alternativas. A Livraria Taverna, de Porto Alegre, montou uma programação especial de debates e saraus com a presença de escritores que durou o sábado inteiro. Sur Livraria, (Florianópolis), Palavrear (Goiânia), Mix Bazar (Campinas), são alguns de outros muitos exemplos pontuais que aderiram à causa.

Internacionalmente, de acordo com Beskos, a edição 2018 do Indie Book Day foi responsável por quebrar mais barreiras e chegar na África do Sul e também em mais países da América Latina. Na Europa, foi especialmente significativo o crescimento na Áustria e Suíça (que no mundo do livro são considerados parte do mercado alemão).

Para o próximo ano, acreditamos que o desafio do Indie Book Day no Brasil será ir além do eixo Sul-Sudeste, o que não foge muito da situação geral do mercado editorial, independente ou mainstream. Levar a iniciativa para mais perto dos leitores, livreiros e editores do Norte, Nordeste e Centro-oeste é o que desejamos. Quem tá afim de ajudar?


* Gustavo Faraon é fundador da Dublinense e também atua como editor da Não Editora. É mestre em comunicação e jornalista formado pela UFRGS.

* João Varella é fundador da editora Lote 42 e da Banca Tatuí. Publicará em 2018 o livro Videogame, a evolução da arte, seu quarto livro. Escreve sobre economia e literatura mensalmente no jornal RelevO. 

[02/04/2018 11:05:00]