Bibliodiversidade e democracia
PublishNews, Raquel Menezes*, 16/02/2018
"Um país que precisa de mais pluralidade, de mais leitura, de mais consumo, de uma economia mais dinâmica e mais debates sem amarras, precisa de bibliodiversidade", defende Raquel Menezes

Bibliodiversidade é uma palavra criada pelos editores sul-americanos e hoje circula por boa parte do mundo. Pensar bibliodiversidade é um gesto em defesa do direito ao pensamento e à reflexão sobre os mais variados aspectos. Nesse sentido, discutir bibliodiversidade ajuda a construir ações em prol do livro e da leitura ‒ noutras palavras, na construção de um país, uma nação, de leitores.

Embora diga respeito, essencialmente, à diversidade de projetos editoriais, a bibliodiversidade está relacionada também com a defesa das diversidades culturais, étnicas, raciais e de gênero.

Livros como o comovente O menino Nito (Pallas), de Sônia Rosa, com ilustração de Vitor Tavares, e Onde está você, Iemanjá? (Record), de Leny Werneck e ilustração de Phillippe Daivaine, ou por exemplo, apresentam questões que dizem respeito, cultural e emocionalmente, às nossas crianças. Essas obras, ao invés dos mesmos dilemas de princesas em castelos, abordam, cada uma a seu modo, através de um investimento literário sólido, a fantasia e o afeto familiar.

Livros como esses permitem ao leitor se identificar com os personagens e, assim, desejar uma relação mais forte com outros livros. Ler ‒ seja no formato do livro clássico, do e-book, audiobook etc. ‒ é um exercício de aprendizagem que passa pelo corpo, e isso deve ser cultivado e ensinado. Qual o melhor modo de fazê-lo que não seja pela identificação?

O sucesso da Flip de 2017 é outro exemplo da identificação do público com a linha curatorial. Hoje, os nichos são indispensáveis para atender aos mercados, e isso vale para o mercado editorial, que tem assistido a grandes editoras voltando atrás e ressuscitando projetos como a Rosa dos Tempos. O alcance de Jarid Arraes, autora de As lendas de Dandara (Editora de Cultura) é também reflexo desta necessidade de representação contida nas reflexões acerca da bibliodiversidade.

A ideia de bibliodiversidade tem sido incorporada, com diferentes graus de profundidade, pelos atores do mercado do livro (autores, editores, livrarias, entidades do setor), mas, em muitos momentos, cada um a entende como quer. É por isso que discutir as principais ideias por trás da bibliodiversidade, acolher e pesar os questionamentos, construir o conceito de modo a torná-lo cada vez mais produtivo para pensar a o livro e a leitura é importante para o amadurecimento de nosso mercado.

No que tange ao processo editorial, é importante que cada um de seus atores entenda e reconheça seu importante papel no debate. O trabalho de um editor é o de fazer circular ideias, abrir diálogos, formar, consolidar e questionar opiniões. Esse papel é tão mais bem realizado quanto maior for a liberdade de atuação.

Se, ao pensarmos em biodiversidade, não pensamos apenas em indivíduos, mas em equilíbrio entre eles, o mesmo vale para a bibliodiversidade. Assim, como evitar que o domínio do marketing e da lógica do blockbusters expulse o debate do mundo do livro? Como manter ou recriar um equilíbrio de fato entre os diferentes projetos editoriais? Essas são as perguntas a serem feitas, cujas respostas, acredito, se democraticamente elaboradas, certamente fomentarão o livro e a leitura. 

Quando dizemos que livreiros e governos têm de zelar para que os projetos editorais encontrem vitalidade, não advogamos apenas em nome dos editores. Quando a bibliodiversidade e as outras diversidades são respeitadas e consideradas, todos ganham: os autores ganham possibilidades maiores de publicação, os leitores ganham uma variedade maior de títulos e de formas de apresentá-los, as livrarias ganham mais potenciais consumidores de livros e, o principal, o debate democrático ganha novas vozes, novas questões e novas soluções.

Ou seja, um país que precisa de mais pluralidade, de mais leitura, de mais consumo, de uma economia mais dinâmica e mais debates sem amarras; precisa de bibliodiversidade. 

 * Raquel Menezes é presidente da Libre pelo segundo biênio (2018-2019), editora da Oficina Raquel e Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É mãe do Dioniso, a quem diariamente deseja um mundo cheio de Bibliodiversidade.

[16/02/2018 08:00:00]