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Até passarinho passa: seis anos sem Bartolomeu
PublishNews, Volnei Canônica, 16/01/2018
Em sua coluna, Volnei Canônica relembra Bartolomeu Campos de Queirós, que morreu há exatamente seis anos

Verão carioca. Uma dessas inúmeras casas de sucos da Zona Sul do Rio de Janeiro me convidava para um refresco e um pão de queijo. Eram só 8 horas da manhã e o sol já torrava os meus pensamentos. O refresco desceu em um só gole. O pão de queijo trancou na garganta. Como uma ave de mau agouro, o celular tocou. Caronte anunciava a travessia. Era manhã de 16 janeiro de 2012. Era tempo de voo!

A notícia chegava de Belo Horizonte com a rapidez da fibra ótica. Que saudades senti daquela fala pausada, daquela pressa alguma de soltar as palavras, daquele suspiro que se perdia pelo ar sem tempo de acabar. 

Passar a diante a notícia da morte do Bartô — assim chamávamos esse amigo — me fez prisioneiro da dor. A cada novo telefonema a dor apertava meus ossos com prazer. Chorar era me esconder no deserto. Vibrava nos meus tímpanos cada letra da frase do livro O peixe e o pássaro: “Sou frágil o suficiente para uma palavra me machucar, como sou forte o suficiente para uma palavra me ressuscitar”.

A minha vida cruzou a do Bartô muitas vezes, na ficção e na realidade. Graças à Ninfa Parreira e à Lucília Soares, organizadoras do livro Depois do silêncio: escritos sobre Bartolomeu Campos de Queirós e ao editor Rafael Borges, da RHJ, tive a grande oportunidade de contar um pouco desta amizade. Uma amizade que ganhava força nas trocas literárias, nas lutas e leituras do manifesto do Movimento por Um Brasil Literário ou na intimidade, quando me atrevia a abrir um de seus livros e, de letra em letra, ler em silêncio.  

Aprendi, na história de Indez — o ovo deixado no ninho para que a galinha volte a pôr ovos — que para termos um Brasil de leitores precisamos deixar um livro ao alcance do leitor todos os dias. Ler outros livros é um ato diário e essencial.

Bartô dizia que precisamos lutar pelo direito à literatura literária. Um direito que não está descrito em lugar nenhum. Então, afiei a faca afiada e desafiei setes cavaleiros das sete luas para me encontrar às escondidas com as musas. Quis fugir com ciganos mas me perdi sem a rosa dos ventos. Descobri na fatia do tempo o meu próprio vermelho amargo. Queria um olho de vidro para reter o passado. 

Bartolomeu nos entregou seus pensamentos, ideias, convicções, questionamentos e, principalmente, a busca pela fantasia, em uma obra de mais de 60 títulos.

Bartolomeu acreditava na escola. Defendia a escola e o professor. Construiu diálogos e pontes para mostrar que a educação devia ir além da função de informar. Que a educação precisava garantir a possibilidade da criança de fantasiar. Para ele, “a fantasia é o que existe de mais importante na construção do mundo.”

Tento imaginar o que Bartô pensaria sobre alguns acontecimentos: o cancelamento da compra dos livros de literatura infantil e juvenil para as escolas pelo Governo; a crescente utilização da literatura para passar uma mensagem edificante e ensinar “moral e bons costumes”; a caça às bruxas e a retirada de livros literários na busca do politicamente correto; políticos invadindo as escolas e dizendo o que pode e o que não pode ser discutido nesse espaço que deveria ser do pensamento livre e os livros que “podem ou não” estar nas bibliotecas escolares; a tentativa de padronização do pensamento, retirando a capacidade da criança do simulacro e da fantasia.

Uma infeliz coincidência, isso o Bartolomeu jamais poderia imaginar, é que o Movimento por um Brasil Literário, que ele tanto lutou para difundir tivesse como sigla MBL, a mesma sigla do Movimento por um Brasil Livre, que invade as escolas e propaga a falsa ideia de uma Escola sem Partido. 

Bartô escreveu um manifesto para o Brasil Literário, que defende a liberdade, a espontaneidade, a afetividade e a fantasia, como elementos que fundam a infância. Os mesmos elementos que são pertinentes à construção literária. Já o outro movimento, o Brasil Livre busca suprimir a liberdade e a autonomia da escola, dos professores e dos alunos. Mesmas iniciais nas duas siglas, mas dois movimentos completamente opostos. 

Seis anos se passaram e tantas coisas aconteceram, Bartô. Algumas boas. Outras nem tanto. 

Casa da Cultura Dona Petita - Museu Bartô | © Luís Ventura
Casa da Cultura Dona Petita - Museu Bartô | © Luís Ventura

Criamos a Associação Bartolomeu Campos de Queirós e você ganhou um museu lá em Papagaios – Minas Gerais, cuidado pela batalhadora e querida guardiã da sua memória, Rosinha Filgueiras.

Seus livros, aos poucos, estão sendo reunidos na mesma casa editorial, a Global. A editora está comprometida a levar suas obras para todos os recantos desse país como uma voz de resistência ao direito de fantasiar, ao direito da literatura literária. 

Em Por parte de pai, seu avô Joaquim espiava a vida pela janela. Novas janelas se abrem e nós vamos poder espiar algumas de suas memórias. A escritora e psicanalista Ninfa Parreiras anuncia a chegada da obra Janelas da escrita: memória de Bartolomeu Campos de Queirós. Neste ensaio, a autora mostrará a memória da janela como metáfora da escrita. Ora abertas, ora fechadas, as janelas revelam um escriba que transita entre a prosa e a poesia, entre a ficção e a autobiografia. O projeto da obra está sendo coordenado por Adebal de Andrade Júnior, com design de Rafael Amato, e será publicado por meio do FEC – Fundo Estadual de Cultura, da Secretaria Estadual de Cultura de Minas Gerais. Estamos aguardando ansiosos o raiar deste dia. 

Seis anos se passaram, Bartô. O poeta Mário Quintana diria, “...eles passarão, eu passarinho.”

Seis anos se passaram, Bartô, e você nos diz: “Até passarinho passa.”

Seis anos se passaram, Bartô, e eu te digo: “Nosso coração é ninho e lá você deixou Indez. Pode voltar sempre!”

Bartolomeu Campos de Queirós (1944 -2012). Escritor mineiro com mais de 60 livros publicados, é considerado um dos principais autores brasileiros. Pela sua obra e seu trabalho em prol da leitura, recebeu vários prêmios e condecorações como: Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres (França), Medalha Rosa Branca (Cuba), Grande Medalha da Inconfidência Mineira e Medalha Santos Dumont (Governo do Estado de Minas Gerais). Recebeu, ainda, láureas literárias importantes, como o Grande Prêmio da Crítica em Literatura Infantil/Juvenil pela APCA, o Jabuti, os da FNLIJ e da Academia Brasileira de Letras.

Livros citados no texto: 
Edições SM: Tempo de voo.
Editora Formato: O peixe e o pássaro.
Editora Global: Cavaleiros das sete luas, Ciganos, Indez, Rosa dos ventos, Vermelho Amargo.
Editora Moderna: Até passarinho passa, De letra em letra, Faca afiada, O olho de vidro do meu avô, Para ler em silêncio.
Editora RHJ: Depois do Silêncio: escritos sobre Bartolomeu Campos de Queirós, Por parte de Pai.

Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É diretor do Centro de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

[16/01/2018 10:06:00]
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