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Prêmio Jabuti, a festa do povo do livro!
PublishNews, Volnei Canônica, 1º/12/2017
Volnei Canônica usa sua coluna para falar sobre a cena da literatura infantil e juvenil dentro da premiação do Jabuti

Ruth Rocha, a homenageada da noite | © Elisangela Borges
Ruth Rocha, a homenageada da noite | © Elisangela Borges

Na noite de ontem (30), o “Povo do Livro”, como definiu Ruth Rocha, a grande homenageada da noite, se reuniu para comemorar mais um ano da produção literária brasileira.

A 59ª edição do Prêmio Jabuti, com curadoria de Luiz Armando Bagolin, aconteceu novamente no belíssimo Auditório Ibirapuera, projetado pelo arquiteto Oscar Niemayer, e apresentou suas 29 categorias. Duas a mais que na edição anterior (Quadrinhos e Livro Brasileiro Publicado no Exterior). Para anunciar os três vencedores, em cada categoria, o Prêmio contou com a jornalista, apresentadora e escritora Marília Gabriela, como mestre de cerimônia.

Segundo o Presidente da Câmara Brasileira do Livro, Luís Antonio Torelli, aquela era “uma noite de festa onde a gente consagra a nossa literatura, os nossos autores, as nossas editoras. Um prêmio que distribui toda a sua pluralidade na produção editorial brasileira”.

Neste clima de festa a coluna acompanhou de perto a cerimônia e conversou com Ruth Rocha e alguns dos autores:

O vencedor na categoria Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil foi o autor Jean-Claude Alphen, com o livro Adélia (Pulo do Gato). Alphen estava muito feliz com este reconhecimento. “Estou há 30 anos querendo um reconhecimento, entre aspas, da academia. Já tive prêmio da Biblioteca Nacional e agora o Jabuti. Tenho que agradecer primeiro a parceria da editora Pulo do Gato e reconhecer que, sem a minha mãe, que foi a inspiração para este livro –  porque Adélia (título do livro) é minha mãe que me incentivou a leitura – sem ela, eu não estaria fazendo hoje o que eu estou fazendo”.

André Neves e o seu 'Nuno e as coisas incríveis' | © Volnei Canônica
André Neves e o seu 'Nuno e as coisas incríveis' | © Volnei Canônica
O ilustrador André Neves está mais acostumado a subir ao palco para receber a estatueta. Nesta edição do prêmio, André foi finalista com três livros: Tombolo do Lombo (Paulinas), Um dia, um rio (Pulo do Gato) e Nuno e as coisas incríveis (Jujuba). Este último, foi o ganhador do 3º lugar na categoria Ilustração de Livro Infantil e Juvenil. O autor fala da importância e da projeção do prêmio não só no Brasil: “estar ao lado de outros colegas que são ilustradores e outras pessoas ligadas à área da literatura infantil é realmente uma alegria, um presente. Espero que todos os livros premiados possam ganhar o mundo e os leitores”.

A super premiada de 2017, Eva Furnari, com o seu livro Drufs, ganhador do 1º lugar na categoria Infantil, contou que “quando eu escrevi o livro, não fazia ideia do que eu estava fazendo. Achei que o livro fosse mais ou menos. Eu quase desisti na metade. Meus filhos é que me convenceram a não parar”. Todos nós leitores só podemos agradecer a família de Eva por ter insistido. Drufs arrematou neste ano outro importante prêmio literário, o de Melhor Livro Infantil da Fundação Biblioteca Nacional. Eva ressalta que mesmo com todo o destaque que a obra está tendo ela fica “Muito feliz porque as crianças estão gostando. Esse na verdade é o maior e o grande prêmio”.

O indígena Cristino Wapichana, escritor do livro A boca da noite, com ilustrações de Graça Lima e editado pela Zit, também estava muito feliz com o Prêmio Jabuti e todos os outros prêmios da obra ao longo deste ano. O livro A boca da noite recentemente foi agraciado com o Prêmio FNLIJ, nas categorias de Melhor Livro Infantil e Melhor Ilustração. “Quem ganhou pra mim foi o livro. Não fui eu Cristino Wapichana. O livro pra mim tem um corpo e segue o caminho dele. Agora, a gente só observa. Estou extremamente feliz e agradecido.”

Este foi seu primeiro Jabuti e Cristino destacou ainda a importância da presença de artistas indígenas na literatura brasileira. Discurso este que ganha reforço na fala do escritor Daniel Munduruku, retornando ao palco, neste ano, para receber o prêmio de 2º lugar na categoria Juvenil pelo livro Vozes ancestrais, editado pela FTD. “O livro traz a memória de 10 povos indígenas. Um prêmio que não é exatamente do Daniel Munduruku (na foto ao lado), mas de todas as nossas tradições, de todos os nossos povos, é um prêmio que mostra que os nossos saberes têm uma profundidade muito grande, que toca as pessoas, que alimenta o imaginário, alimenta o sonho, alimenta o pertencimento a esse grande país que é o Brasil e que muitas vezes se esquece da nossa existência, esquece da nossa presença ou nos coloca em segundo plano.”

O escritor, tradutor, adaptador e novelista Walcyr Carrasco fala de sua paixão pela tradução e adaptação. “Estou muito feliz em ter ganho o Prêmio Jabuti pela tradução e adaptação de Romeu e Julieta (editora Moderna). Eu adoro esse trabalho de tradução e adaptação pra entrar na alma de um clássico. Entrar no coração de um grande escritor, como Shakespeare. Eu acho que com isso eu aprendo a ser melhor autor”. Walcyr ganhou o 1º lugar na categoria Adaptação.  

Já Rodrigo Machado falou de sua estreia no Jabuti, vencendo o 2º lugar em Adaptação com o livro Ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, publicado pela FTD. “Ainda não caiu a ficha. Minha mãe (Ana Maria Machado) ganhou um Jabuti muitos anos atrás e eu brincava com ele. É uma coisa do meu imaginário. Pra mim, ainda está no terreno da fantasia. Vou ter de pegar a estatueta e ver que é de verdade”, disse minutos antes de subir ao palco.

Uma importante surpresa do evento foi o Prêmio na categoria Não-Ficção, para a obra Alfabetização: A questão dos métodos, de autoria de Magda Soares, editado pela Contexto. Em seu discurso Magda ressalta a importância do processo de alfabetização das crianças e jovens para termos um país de leitores! Já o Prêmio de Livro do Ano, na categoria Ficção foi para o romance Machado (Companhia das Letras), de Silviano Santiago.

Porém, o ponto alto da festa foi a homenagem da grande escritora Ruth Rocha, agraciada com o Prêmio Personalidade Literária. Ruth comemora 50 anos de sua carreira dedicada à literatura e à infância. A coluna teve o privilégio de ter acesso ao camarim da autora antes da homenagem.  Ela revelou: “estou muito emocionada. Não há quem não goste de ser amada, de ser reconhecida, de ser mimada. Quem é que não gosta? Isso me faz um bem grande. Me deixa muito contente. Eu acho que os escritores precisam disto. A vida do escritor é muito solitária.”

Ruth contou ainda que começou a escrever livros por acaso. “Sylvia Ortoff, diretora da Revista Recreio, insistia comigo para eu escrever um conto. Insistiu muito! Eu dizia pra ela, não sei escrever para criança. Nunca escrevi. Não sei.  Ela dizia: ‘conta aquelas histórias que você conta para a sua filha’. Minha filha queria histórias, mas não as histórias clássicas como João e Maria, Branca de Neve. Ela procurava em volta e dizia: ‘Eu quero história daquele sofá’. Então, eu tive de me virar pra inventar uma história do sofá, da mesa.” 

Graças aos desafios que a filha Mariana colocava para a mãe e a insistência de Sylvia Ortoff, Ruth se tornou uma das maiores escritoras de literatura para crianças e jovens, formando diferentes gerações de leitores. “Sylvia me dizia: ‘Você conta uma história das borboletas. Uma borboleta azul e outra, amarela’. Elas não podiam viver juntas porque tinham cores diferentes.” Romeu e Julieta, a primeira história de Ruth publicada.

A autora coleciona um “bando” de Jabutis, são oito no total. Um deles como Livro do Ano, na categoria não-ficção com a obra Escrever e criar... Uma nova proposta, da Quinteto Editorial, escrito em co-autoria com Anna Flora.

Quando a coluna pergunta sobre a importância do Prêmio Jabuti para a literatura brasileira ela responde: “eu não queria te contar, não. Porque é o que vou falar lá na hora do prêmio (na homenagem). Esse prêmio Jabuti é a festa do livro. É a festa do autor. É a festa do tradutor. É a festa do adaptador. É a festa do editor dono da empresa ou editor diretor ou o editor profissional que põe o livro em pé. É a festa do Povo do Livro!”

** Ao longo do dia, a coluna irá subir vídeos com os depoimentos dos autores e a cobertura desta “Festa do Livro”.

Volnei Canônica é formado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, com especialização em Literatura Infantil e Juvenil também pela Universidade de Caxias do Sul, e especialização em Literatura, Arte do Pensamento Contemporâneo pela PUC-RJ. É diretor do Centro de Leitura Quindim e ex-diretor de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, do Ministério da Cultura. Coordenou no Instituto C&A de Desenvolvimento Social o programa Prazer em Ler. Foi assessor na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Na Secretaria Municipal de Cultura de Caxias do Sul, assessorou a criação do Programa Permanente de Estímulo à Leitura. o Livro Meu. Também foi jurado de vários prêmios literários.

[01/12/2017 12:24:00]
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