Liberdade de expressão, diversidade e (re)união da Europa deram o tom da abertura da Feira de Frankfurt
PublishNews, Leonardo Neto, 11/10/2017
Cerimônia teve a participação da chanceler alemã Angela Merkel e do presidente francês Emmanuel Macron

Quatro e quinze da tarde. O alarme toca lembrando que é hora de ir para a fila. Diante dos diversos avisos do reforço da segurança para a cerimônia de abertura da 69ª Feira do Livro de Frankfurt, o mundo do livro resolveu se adiantar e chegar antes. Convites às mãos. Casacos e mochila na chapelaria. Hora de enfrentar o tumulto. Os franceses, homenageados da noite, não respeitam muito a fila. Um a um, alemães, franceses, brasileiros, árabes, ingleses, muçulmanos, cristãos e ateus, enfim, o mundo passa pelo detector de metais, enquanto seus pertences entram no túnel do raio x. Recepcionistas checam os convites. O esquema de segurança fazia sentido. Duas das maiores autoridades europeias tinham um encontro com o mundo do livro. Angela Merkel, a poderosa chanceler alemã, e Emmanuel Macron, o presidente francês, a essa altura já estavam na sala vip se preparando para subir ao palco. A plateia lotou o Congress Center do Frankfurter Festhalle. Todos queriam saber o que a incomum presença de dois chefes de estado significaria para o maior evento global da indústria do livro no mundo.

Emmanuel Macron e Angela Merkel abriram oficialmente a Feira do Livro de Frankfurt | © Divulgação / Frankfurter Buchmesse
Emmanuel Macron e Angela Merkel abriram oficialmente a Feira do Livro de Frankfurt | © Divulgação / Frankfurter Buchmesse

Os discursos foram em defesa da liberdade de expressão, da diversidade e, sobretudo, da (re)união da Europa. Em um momento em que é sacramentada a saída do Reino Unido do bloco e em que há uma escalada de uma direita conservadora e muitas vezes raivosa, parecia impossível escapar desses temas.

O primeiro a subir ao palco foi Juergen Boos, diretor da Feira. Na manhã do mesmo dia, ele já tinha, em um encontro com jornalistas, defendido aguerridamente a liberdade de expressão como fundamento para a indústria do livro. Este foi também o tom da sua fala no palco. “O mundo só pode sobreviver se houver diversidade”, sustentou. A mesma ideia foi defendida por Heinrich Riethmüller, presidente da Associação Alemã de Editores e Livreiros: “a qualidade da educação e a independência das editoras são fundamentais na sociedade”.

Angela Merkel faz seu discurso na cerimônia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt | © Carlo Carrenho
Angela Merkel faz seu discurso na cerimônia de abertura da Feira do Livro de Frankfurt | © Carlo Carrenho

“Não devemos ter medo de outras culturas”, disse Macron em seu discurso que também tratou de enaltecer a francofonia. “A língua francesa não pertence àqueles que nasceram França, mas àqueles que fizeram essa escolha”, disse. “A francofonia se torna mais forte se confrontada com outras línguas”, continuou, arrancando aplausos da plateia. E, enquanto que no Brasil, a cultura e as artes são motivos para fissões, Macron defendeu que “não haveria Europa sem cultura”. “Devemos incentivar todos os artistas de todas as áreas porque isto é a coisa mais preciosa que temos hoje em dia”, completou. “Livros são as melhores armas. Nada mais poderoso do que um livro. É o que temos de mais precioso no mundo”, concluiu.

Para encerrar a cerimônia, fortemente pontuada por questões políticas, a chanceler alemã subiu ao palco e defendeu que a “arte e cultura se desenvolvem melhor em uma sociedade com liberdade”. Angela não fugiu de assuntos como o preço fixo, vigente na Alemanha e na França e que, na sua opinião, mantém livrarias, e das atuais discussões sobre direitos autorais na era digital.

Incômodo

Tradicionalmente, o convidado de honra da Feira elege um autor para representá-lo na cerimônia. Foi assim com o histórico discurso de Luiz Ruffato em 2013, quando o Brasil foi o homenageado. No ano em que uma língua – e não um país – foi a homenageada, o escolhido foi o dramaturgo e escritor líbano-canadense Wajdi Mouawad. Depois de ler um texto inédito, Wajdi apresentou uma vídeo-performance em que aparecia latindo raivosamente por cerca de cinco minutos. Na sequência, leu um texto em árabe, para o qual não houve tradução. Foram dois momentos que deixaram a audiência incomodada. Aquele incômodo que a arte deve provocar.

Quando Macron subiu ao palco, o que aconteceu na sequência da apresentação de Wajdi, o presidente francês começou comentando a performance. O quanto era difícil para ele estar ali depois daquele momento forte. “A palavra e o livro podem ser inconvenientes, mas é isso que evita que foquemos apenas em nós mesmos”, disse. 

Depois da abertura oficial, as autoridades seguiram para o pavilhão francês. Lá, Merkel e Macron imprimiram, em uma réplica de uma prensa antiga, uma página com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

[11/10/2017 09:09:00]