Os 35 anos da Agência Mertin
PublishNews, Leonardo Neto, 28/09/2017
Em entrevista ao PN, agente alemã Nicole Witt fala das dificuldades em espalhar a literatura em língua portuguesa no mundo e dá pitacos para quem quer ter seu livro publicado no mercado internacional

A próxima Feira do Livro de Frankfurt (11 – 15/10) será (ainda mais) especial para a nossa colunista e agente literária Nicole Witt. É que a Agência Mertin, conduzida por ela, completa 35 anos em 2017. Nascida com a missão de espalhar a literatura nas línguas espanhola e portuguesa mundo afora, a Mertin foi criada em 1982 por Ray-Güde Mertin, que morreu em 2007. Desde então, a agência passou a ser capitaneada por Nicole. Sob sua gestão, em 2015, a Agência Mertin ganhou o prêmio de melhor agente do ano outorgado pela Feira do Livro de Londres e pela UK Publishers Association.

Nesses 35 anos, a Agência Mertin foi casa de grandes nomes da literatura lusófona como José Saramago (fora do casting desde o início de 2015), José Eduardo Agualusa, Augustina Bessa-Luís e Mia Couto, além de brasileiros como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Augusto Boal, Fernando Bonassi, Carlos Heitor Cony, J.P. Cuenca, Andréa del Fuego, Paulo Lins, Moacyr Scliar, Paulo Scott e Joca Reiners Terron.

Em entrevista ao PublishNews, Nicole relembra alguns momentos importantes da agência envolvendo autores brasileiros, fala das dificuldades em espalhar a literatura em língua portuguesa no mundo e dá pitacos sobre o que um livro brasileiro precisa ter para ser aceito no mercado internacional.

 PublishNews - A Agência Mertin completa 35 anos agora em 2017. Quais histórias envolvendo autores ou editores brasileiros mais marcaram a trajetória da agência nessas três décadas e meia?

Nicole Witt - Esta pergunta é difícil porque é muito abrangente. Penso no início da agência, quando Ray-Güde Mertin, a fundadora, traduzia livros do Moacyr Scliar, do Raduan Nassar, do João Ubaldo Ribeiro, e de outros tantos. Me lembro de Perto do coração selvagem, da Clarice Lispector, reeditado em alemão em 2013, quando o Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt. Penso em sucessos internacionais como Ana em Veneza, de João Silverio Trevisan, a obra do Guimarães Rosa, do Érico Verissimo, do Luis Fernando Verissimo, do Heitor Cony, Cidade de Deus, do Paulo Lins ou Não verás país nenhum, do Ignácio de Loyola Brandão. Mas também, me lembro da dificuldade – às vezes até hoje – de fazer circular estes livros que mostram um Brasil além dos clichês - a Garota de Ipanema, o carnaval, o futebol. Um Brasil polifônico: urbano e rural; tradicional e moderno; cosmopolita, com livros que podem ser políticos ou mais intimistas.  

PN - O Brasil foi o país homenageado da Feira do Livro de Frankfurt em 2013. De lá para cá, a participação brasileira na Feira não para de minguar (seguindo o que aconteceu também com a economia do país). O que poderia ter sido feito e não foi feito? Há ainda chances de recuperar o tempo perdido?

NW - Primeiro gostaria de dizer que é bastante habitual que a presença dum país depois de ter sido país homenageado na Feira do Livro de Frankfurt mingue. Devemos pensar que para o ano de homenagem são feitos enormes esforços e que é lógico que não se mantenha este esforço especial nos anos posteriores. Também não podemos esquecer que no ano seguinte, a feira conta com outro país homenageado. Então não é fácil conseguir um efeito duradouro. Mas, claro que é possível. É importante dizer que, em 2013, a literatura brasileira conseguiu bater o seu próprio recorde, ao publicar 93 títulos na Alemanha. No ano seguinte, foram publicados 17, um número muito melhor do que o conquistado nas décadas anteriores. Isto já é um sucesso. De 2015 em diante, esse número caiu, o que, com certeza, tem a ver com vários fatores, mas também com o enfraquecimento do programa de Apoio à Tradução da Fundação Biblioteca Nacional. Para o futuro acho importante que este programa se mantenha. Também acho importante que a literatura brasileira continue mostrando presença nas feiras do livro pelo mundo: não precisa ser massiva, mas deveria ser constante e bem-planejada, com tempo. Lembro-me da feira de Gotemburgo, há três anos finalmente vários autores foram convidados. Ótimo, mas como não houve uma boa coordenação, os livros deles não estavam prontos para a ocasião, e não figuravam em todos os programas. Isto significa um desperdício, claro. É uma pena quando isso acontece. Repito que seria suficiente com convidar poucos autores, mas de forma constante e bem-planejada.

PN – Você falava do Programa de Apoio à Tradução, que facilitou a circulação e a difusão da literatura brasileira mundo afora. Qual a importância desse edital no seu trabalho? Como seria se ele deixasse de existir?

NW - O Programa de Apoio à Tradução da Fundação Biblioteca Nacional é essencial para a presença da literatura brasileira no mundo! Parece-nos excelente que o programa continue e deveria continuar sempre. Ele dá um norte para a base nos cálculos de projetos de tradução, sobretudo para casas editoriais pequenas e medianas, que muitas vezes escolhem títulos literários importantes. Há editores internacionais que pedem especificamente que nós os apresentemos títulos para os quais eles podem conseguir apoio para a tradução. Qualquer “buraco” na comunicação do programa e de projetos apoiados por ele pode ter como consequência a desistência por parte desses editores. Eles podem desistir não só do projeto, como de investir na literatura brasileira. Isso, de fato, já aconteceu. Então parece-nos de máxima importância que o programa funcione de jeito muito estável e transparente. A consequência duma parada do programa seria um número minguado de títulos traduzidos e de atenção pela literatura brasileira.

PN - No ano passado, justamente nessa mesma época, você anunciava a chegada de autores de outras línguas além do português e do espanhol, idiomas correntes nos territórios nos quais a Agência Mertin se especializou seus 35 anos de história. A que se deveu essa iniciativa?

NW - A chegada de autores de outras línguas, além do português e do espanhol, na verdade não foi nenhuma estratégia da agência. Apareceu a ocasião de assumir, por exemplo, o agenciamento do renomado autor libanês Elias Khoury, ou de Bachtyar Ali, best-seller curdo do Iraque que acaba de receber o Prêmio Nelly-Sachs aqui na Alemanha. A gente se sentiu muito perto deles pelo conteúdo e pelo estilo. Não os quis descartar. Julgo que estas ocasiões também têm a ver com o fato de que em 2015 a agência ganhou o prêmio de melhor agente do ano, entregue pela Feira do Livro de Londres e pela UK Publishers Association, o que deu uma visibilidade adicional ao nosso trabalho e às obras dos nossos autores. Além disso, a gente vai continuar mantendo-se fiel ao nosso perfil original, as literaturas em língua portuguesa e espanhola.

PN - Para esse ano, a Agência Mertin prepara mais algum anúncio relevante?

NW - A agência segue na mesma linha, anunciando nesta feira de Frankfurt o novo romance da Patrícia Melo, Gog Magog, que será lançado pela Rocco em novembro, e o novo romance do autor alemão Marc-Uwe Kling, intitulado QualityLand, com uma primeira tiragem de 100 mil exemplares. Qualquer coisa além disso, você saberá na nossa festa de aniversário em Frankfurt (risos).

PN - A pergunta de um milhão de dólares: o que um livro brasileiro precisa ter para conquistar espaço no mercado internacional?

NW - Em geral – existem exceções, claro – um livro brasileiro para conquistar espaço no mercado internacional deve ter uma boa mistura entre valores universais (de conteúdo e estilo) e um contexto e colorido local, para justificar o esforço de traduzir do português. O que o mercado internacional não costuma apreciar hoje em dia é a literatura experimental, por exemplo. É importante que o livro conte uma boa história, ou seja, tenha um ótimo plot, e que não deixe de lado o fator entretenimento. Evidentemente há ainda (e espero que sempre haja) pequenos editores dispostos a publicar textos muito literários, também complexos e diferentes, mas temos a impressão que cada vez é mais importante para os editores o elemento “venda”.

PN - Estamos chegando a mais uma edição da Feira do Livro de Frankfurt. Você, como uma veterana no evento, já consegue farejar alguma tendência?

NW - O bom das feiras é que sempre podem surpreender, também aos veteranos (risos). É por isso que todos nós vamos lá, não é? Mas o que tenho observado – e não é de hoje – é que o foco está em muitos poucos livros, nos best-sellers, a despeito do alto número de livros produzidos. Muitos destes títulos nem chegam de maneira generalizada aos pontos de venda. Pelos corredores da feira, quando não falamos de best-sellers, que não são tantos, estamos falamos de livros que prometem poder chegar a um público mais amplo, não só a um público nicho. No olhar dos que compram direitos, isto parece menos provável para literatura em línguas como o português. Não esqueçamos que a grande maioria dos romances traduzidos tem origem nos países anglo-saxões e que a atenção dos editores, divulgadores e jornalistas se concentra nesta área – além das tendências mais atuais, que são procuradas mais na literatura nacional e traduzida do inglês. Este fato claramente marca uma dificuldade permanente para a gente.

PN - Quais livros / autores brasileiros estão nos prelos de editoras internacionais a partir de negócios intermediados pela Agência Mertin? 

NW – Temos livros do Augusto Boal, que no Brasil passa a ser publicado pela Editora 34 depois do fechamento da Cosac Naify, na Argentina, Rússia e Vietnã. J.P.Cuenca está apresentando agora edições de sua obra na França, na Feira do Livro de Gotemburgo [que começa hoje e segue até o próximo dia 1º], na Itália e tem convite para a prestigiosa Feira do Livro de Guadalajara (25/11 a 03/12). Além disso, temos Ferréz sendo publicado na Argentina e na França; Guiomar de Grammont, na França, Alemanha e Sérvia; Paulo Lins, no Egito, Macedônia e Tailândia; Flávia Lins e Silva, na França na Índia; Adriana Lisboa, na Polônia, Eslovênia, Índia e dois livros na China; Paulo Scott, em Israel, Croácia e Turquia, e Moacyr Scliar, na Croácia, Dinamarca, Geórgia, Indonésia e Kuwait. 

[28/09/2017 11:08:00]