Nova York: do papel higiênico by Trump aos algoritmos da Amazon Books
PublishNews, Gustavo Guertler*, 06/06/2017
Gustavo Guertler, editor da Belas Letras, foi a Nova York acompanhar a BookExpo America e conta o que viu por lá

Desci em Nova York logo depois do meio-dia de domingo e tudo ocorreu como o esperado: peguei um dos metrôs no sentido errado, cheguei quase duas horas atrasado no apartamento do meu amigo Blake, os porteiros não sabiam quem eu era, não conheciam meu amigo Blake e, mesmo que soubessem, não tinham a chave do apartamento para eu entrar.

Quando voltei para meu "hotel", já de noite, finalmente deu tudo certo e até o Blake estava lá, in person. Ele só veio mesmo para garantir que tudo ia acabar bem, como acabou mesmo. Fomos comer um kebab ali perto do World Trade Center. Lembrei de como tinha sido legal o ano passado em Chicago, mas ele me confirmou que, a partir deste ano, a BEA (Book Expo America) ia mesmo ficar em Nova York.

Ir para a BEA até uns anos atrás era também uma oportunidade de conhecer os EUA de costa a costa. A feira era itinerante, a cada ano sediada em uma cidade americana diferente, o que dava a ela um charme especial. Fui pela primeira vez em 2012, quando já tinham acabado com essa política: a organização tinha decidido que Nova York seria a sede oficial da BEA, sem alternância. Mesmo assim, em 2016 eles abriram uma única exceção e fizeram em Chicago.

A Book Expo America foi sendo ofuscada aos poucos por Londres, que cresceu e acabou monopolizando a atenção do mercado do livro no primeiro semestre. Por isso, a pergunta que mais ouço de colegas desde que estive na BEA pela primeira vez em 2012 é: vale a pena?

Na minha opinião, vale. Embora seja uma feira pequena no sentido físico da palavra – talvez não dê nem um pavilhão de Frankfurt – a Book Expo America proporciona experiências diferentes e por isso está no meu calendário anual obrigatório. Em primeiro lugar, para quem gosta de analisar tendências e entender o futuro, acho que é um prato cheio.

Alguns exemplos disso: no ano passado, um dos assuntos mais comentados foi a forte influência do que eles chamam de New Localism, ou seja, de os consumidores passarem a valorizar mais os produtos locais. Este ano – bingo –, de uma maneira geral, o mercado reportou um crescimento das livrarias pequenas e uma leve queda no crescimento das megastores – e estamos falando desses números no berço da Amazon.

Na BEA de Chicago assisti a um painel sobre O futuro do livro digital com uma galera especialista em e-books. O mais irônico foi que, nas palavras do próprio mercado digital, o futuro seria... o papel! Ou seja, as previsões do mercado digital americano decretavam que os e-books estabilizariam suas vendas num patamar que dificilmente passaria dos 25% do mercado. Um ano depois, ou seja, nesta BEA em NY, dados da Nielsen revelaram que em 2016 houve queda nas vendas de e-books. E o mais intrigante: as vendas de livros em capa dura pela primeira vez nos últimos cinco anos ultrapassaram as de e-books.


Outra sacada legal da BEA é a interação entre os leitores e os autores. Ao contrário de Frankfurt, onde apenas o último dia é aberto para leitores e público em geral, na BEA existe o Reader Pass, uma credencial que permite aos leitores ter acesso à feira em qualquer dia. Os editores preparam sessões de autógrafos exclusivas e não há venda de livros: quem pega a senha para a sessão recebe gratuitamente o exemplar. Assim, é possível aprender muito apenas ouvindo as conversas paralelas nas filas formadas pelos leitores dessas sessões especiais.

Por último, temos a oportunidade de fazer contato direto com pequenos livreiros americanos, de assistir às apresentações dos editores sobre suas apostas e, de quebra, poder ver nomes incríveis ao vivo como o próprio Stephen King e Lemony Snicket.

Em paralelo a BEA, também no Javits Center, acontece a BookCon, uma convenção de livros e revistas em quadrinhos com um público-alvo mais jovem, voltada ao universo Geek, juntamente com a conferência dos blogueiros americanos.

Posman Books à esquerda, no Chelsea Market | © Gustavo Guertler
Posman Books à esquerda, no Chelsea Market | © Gustavo Guertler

Nova York também sempre permite dar uma olhada de perto no que vai acabar sendo tendência no mundo inteiro, seja nas artes, na moda ou no mercado editorial. Visitei uma livraria chamada Strand Books, que é um templo para quem curte livros. Fica num prédio que, por dentro, parece um casarão antigo de três andares. É como se tivessem colocado a Livraria Cultura do Conjunto Nacional dentro da casa da sua avó. Do lado de fora, na calçada mesmo, sem nenhum vendedor ou segurança por perto, há nichos com os saldos. Lá dentro, enquanto você caminha, dá para ouvir o piso rangendo. Por ali autografaram os grandes caras da literatura americana – a livraria foi fundada em 1927 – e a Strand tem marca própria de souvenirs: o meu preferido é o botton Make America Read Again.

Saindo da Strand, ainda dei uma passada no Chelsea Market, por indicação de uma tradutora amiga (oi, Candice), que tinha me comentado sobre uma livraria independente descolada lá, que já curti logo de cara: ela se chama Posman Books, é uma empresa familiar, com duas lojas em NYC e uma em Atlanta. Uma mistura muito vibrante de uma livraria no meio das cores, cheiros e sabores do Chelsea Market, onde só entra comida divina com preço justo. Um sanduíche de lagosta, depois um chocolate da Li-Lac, o mais antigo de Manhattan, enquanto folheio os livros – quer vida melhor que essa?

Rolos de papel higiênico com a cara do presidente Trump | © Amazon
Rolos de papel higiênico com a cara do presidente Trump | © Amazon

A livraria tem uma atmosfera que combina bem com o mercado, muita coisa da cena local nova-iorquina, livros para quem quer curtir Nova York sob vários ângulos e muitos livros de gastronomia, além de souvenires muito criativos. Puxei papo com um vendedor, e sabe qual um dos livros mais procurados e vendidos de lá? Não conto, pelo menos não antes de falar com a Agência Riff. Mas um dos souvenires mais vendidos é o papel higiênico com a cara do Trump impressa.

Também aproveitei para dar uma passada na Amazon Books do Columbus Circle, inaugurada havia pouco mais de uma semana. Não é à toa que a Amazon partiu para essa estratégia – "o futuro dos livros digitais é o livro físico". O bom atendimento chamou a atenção, lá dentro tudo perfeito, alinhado, cheiroso, bonito. Impossível não ficar pensando: "Será que cada vez que dou um passo algum sensor detecta minhas preferências? Será que se eu olhar algum livro eles vão saber o que estou olhando?” Para testar, dei uma olhada nos livros que eu jamais compraria só para ver se o sistema deles altera o algoritmo da minha conta. “Será que estou sendo escaneado por inteiro naquele detector da entrada e eles já sabem meu peso, medidas, o que comi antes de entrar lá e o que vou fazer depois de sair de lá?”

Page Turners da Amazon | © Gustavo Guertler
Page Turners da Amazon | © Gustavo Guertler

Brincadeiras à parte, curti muito a ideia de que a ponta de gôndola principal é montada com livros que alcançaram pontuação acima de 4.8 de 5 pelos leitores. Isso pode ser um sinal interessante. Todos os livros estão expostos pela capa, nada de apenas lombadas visíveis. Uma outra prateleira organiza os livros lado a lado ligados por setas divertidinhas informando: “Se você gostou deste, vai amar este”. Mais uma inovação muito legal: há uma prateleira somente com livros que os leitores leram em menos de três dias. Achei sensacional, porque a própria Amazon sabe que só ela tem as informações necessárias para criar tal categoria neste momento. Assim como uma outra somente com livros que tiveram mais de 10 mil comentários dos leitores.

Tenho a impressão de que os vendedores terão pouco trabalho em administrar reposições, e essa é uma imensa vantagem competitiva. Não encontrou o livro que procura? Então a culpa é sua, porque a Amazon sabe tudo que você quer antes de você querer. Você precisa de um psiquiatra, não de um livro. Ou encomende pela internet – amazon.com.

Saí de lá com a sensação de estar sendo vigiado, não sei por quê. Paguei meu livro no caixa, agradeci o vendedor e ele me disse bye bye de um jeito estranho – como se tivesse dito "tchau, obrigado e cuidado com aquela tendinite quando correr no Central Park hoje à noite". Como ele sabia que eu planejava dar uma corrida antes de ir embora?

Obrigado ao PublishNews por este espaço. Vejo você em Nova York ano que vem!


* Gustavo Guertler é publisher da Belas Letras, editora independente do Rio Grande do Sul focada em não ficção comercial e gift books – ou “livros bonitinhos e descoladinhos”. Pai da Marina, apaixonado por corrida, empreendedorismo e criatividade, adepto intransigente da gente-finice.

[05/06/2017 06:30:00]