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Documentário sobre o editor independente Massao Ohno
PublishNews, Cindy Leopoldo, 10/03/2016
Cindy Leopoldo entrevistou Paola Prestes, diretora do documentário sobre o editor brasileiro Massao Ohno, e conta tudo na sua coluna de hoje

Só o fato de haver um documentário sobre um editor independente brasileiro já me deixaria muito empolgada. Isso porque uma de minhas maiores preocupações em relação ao trabalho editorial no Brasil é a escassez de documentos sobre o passado e principalmente o presente de nossa profissão.

Acho curioso que nós, que produzimos livros, tenhamos por costume passar apenas oralmente as melhores práticas de nosso trabalho para as novas gerações. Vivo procurando livros sobre, por exemplo, workflow da produção de livros no Brasil. Não encontro. Cada editora produz seus livros a seu modo e nomeia cargos a seu modo, o que faz com que cada nova contratação exija um longo tempo de treinamento porque, não raramente, a cada editora nova em que você vai trabalhar é uma função nova que você vai exercer, mesmo que o cargo tenha o mesmo nome.

Se eu quero todos fazendo livros de forma padronizada no Brasil ou no mundo todo? Não, de jeito nenhum. Mas acho que nos falta estudo sobre nós mesmos até para pensarmos em inovações. Não é que eles não existam (como não citar, por exemplo, o A construção do livro, que é uma obra importantíssima), mas o fato é que há pouco. Nós lemos livros sobre tudo o que você possa ou nem possa imaginar, mas não sabemos, por exemplo, que funções o cargo de “editor” abrange no nosso mercado como um todo (editor pode ou não lidar com e-books, pode ou não adquirir títulos, pode ou não lidar diretamente com texto e pode ser até o dono da editora...). Em meus sonhos, toda editora deveria publicar ao menos um e-book sobre como é a produção de seus livros. Mas já estava aceitando que o trabalho do editor deve ser ou um segredo ou um assunto tão entediante que ninguém fala muito sobre isso fora das editoras.

E aí me aparece um documento sobre um editor brasileiro. Não um livro, mas um documentário! E não é só um documentário frio, é uma homenagem a um editor, que acaba sendo uma homenagem à profissão e, para completar a alegria, esse editor é o Massao Ohno!

A primeira vez que esse nome surgiu na minha vida foi quando procurei em 2000 e muito pouco o livro de Hilda Hilst chamado O caderno rosa de Lori Lamby. Procurei porque simplesmente não acreditava que algo assim pudesse realmente ter sido publicado (uma sinopse curta, e rasa, seria: “diário de uma menina de oito anos que vende seu corpo incentivada por seus pais”). Na época, ele ainda não tinha sido reeditado pela Editora Globo e nas minhas buscas consegui descobrir o nome da editora, mas não achei nenhum exemplar dele.

Acabou que até hoje não li o livro, apenas trechos e eles me causaram um impacto tão grande que nunca consegui lê-lo completamente. Mas o nome de Massao Ohno ficou na minha cabeça. Trabalho no mercado editorial há uns 13 anos e sei que poucos editores teriam coragem de lançar algo tão profundamente perturbador. Então quem diabos era esse homem? Que editora "louca" era essa?

Numa explicação bem simplificada, Massao Ohno foi o editor independente que alterou a história da poesia brasileira lançando, por exemplo, a Coleção Novíssimos, na década de 1960, em que incluía, entre outros, Roberto Piva e Claudio Willer. Como eu sei disso? Tendo amigos que sempre idolatraram o Piva, buscando Lori Lamby, buscando informações na internet, tendo amigos como o Ricardo Redisch, que trabalhou com o Massao, e vendo esse documentário. Em suma, caso não aconteça uma série de coincidências que te levem a ter curiosidade sobre essa editora, o trabalho desse editor extremamente importante pode ser completamente desconhecido até por nós que trabalhamos no mesmo meio simplesmente porque não documentamos nossa própria história.

Mas o documentário, que terá duas exibições especiais na Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94 - São Paulo / SP) - uma na próxima segunda-feira (14) e outro no dia 30 de março - dá a informação mais completa, com a emoção necessária para entender quem foi esse editor brasileiro.

Abaixo, veja uma curta reportagem sobre ele

O documentário de Paola Prestes acabou sendo um grande presente para mim e acho que vai ser para todo mundo que gosta de livros, em especial da literatura brasileira, mas acho que vai ser um presente ainda maior para aqueles que trabalham em editoras e admiram o trabalho do editor-artista que cada vez mais perde lugar para o editor-executivo (mesmo que muitas vezes coexistam em um mesmo corpo) dentro de grandes editoras. Felizmente, vemos também um grande movimento de editores independentes lutando pela edição artística e isso pode ser conferido, por exemplo, em feiras incríveis como a Avessa, que apesar de já estar em sua quarta edição, só conheci em 2015, ano em que perdemos a Cosac Naify, em São Paulo.

Ao final do documentário, senti uma gratidão e um carinho muito grandes por ver o trabalho de um editor apaixonado pelo que faz documentado e uma angústia pelo tanto que falta a ser feito pela história da produção de livros em nosso país.

Aqui embaixo uma conversa rápida que tive por email com a diretora Paola Prestes para entender melhor como foi a produção desse filme:

Oi, Paola, de onde veio a ideia de fazer um documentário sobre um editor independente brasileiro?

Me encantei com a figura. Não saberia explicar racionalmente, pois é assim que geralmente acontece em documentário, ou pelo menos nos meus: é um arrebatamento que faz aquele personagem – e, por tabela, sua história – tornar-se mais importante e interessante do que todos os outros. Foi assim com o Flávio Rangel, que nem cheguei a conhecer, pois já tinha falecido quando fiz o documentário Flávio Rangel – o teatro na palma da mão. É um tipo de paixão pelo tema e pelo personagem que é seu vetor que dura o tempo da realização do filme.

E como você conseguiu financiar a produção do filme? Li no blog do Claudio Willer, um dos grandes poetas lançados pelo Massao, que a Fundação Japão "tirou o corpo fora", quem não tirou?

Essa informação é verdadeira, infelizmente. Pedi uma quantia pequena para poder finalizar o filme e eles não quiseram dar seu apoio. Foi sofrido, com silêncios, esperas inexplicáveis. O lado bom disso foi que essa atitude foi uma ducha fria que me fez acordar e desenhar uma campanha de financiamento coletivo. Acabei conseguindo praticamente o dobro do dinheiro que pedi à Fundação Japão. Só acho uma pena a Fundação não poder hoje dizer que apoiou um projeto sobre um dos mais importantes descendentes de japoneses no Brasil, um artista, um editor, um intelectual que teve um impacto muito grande sobre a cultura brasileira, que soube cruzar fronteiras e tecer novas e frutuosas relações no campo das artes. Quem deveria fomentar a produção de documentários como o do Massao Ohno seria o Ministério da Cultura. Porém, não existe atualmente um programa que financie esse tipo de produção de maneira abrangente e contínua. Enfim, o filme está aí e é isto que importa. Foi feito no melhor espírito “Massao”, com muita generosidade por parte de pessoas que se sensibilizaram e a quem sou eternamente grata, como a Maria Adelaide Amaral, Milú Villela, Alcides Nogueira e a Fundação Roberto Marinho, entre outros. Também preciso citar o Zeca Baleiro que cedeu a maravilhosa Canção X, que é um poema da Hilda Hilst que ele musicou e é interpretada pela Ângela Maria. Um luxo só.

Quando tempo esse filme demorou para ser finalizado e exibido?

Comecei a gravar em 2006 e o filme ficou pronto em 2015. Houve vários percalços: o primeiro aconteceu em 2007, quando o projeto integrava uma série que a TV Cultura iria realizar sobre os 100 anos da imigração japonesa no Brasil. A série acabou não sendo produzida e o documentário do Massao foi colocado na geladeira pela primeira vez. Nesse período, eu estava finalizando o Flávio Rangel e dei prioridade a esse projeto, que lancei em 2009 na TV Cultura e na Mostra Internacional de São Paulo. Em 2010, a Biscoito Fino lançou o DVD do filme. Ele continua na TV hoje nos canais a cabo Curta! e Film & Arts, o que é um percurso surpreendente para um documentário feito sem nenhum patrocínio, como também foi o caso do Massao Ohno. Em 2010, o Massao faleceu e aí confesso que, apesar de teimar em acreditar em moinhos de vento, achei por um momento que jamais finalizaria o filme. Mas aí eu pensava no Massao e sentia que tinha de honrar o que tinha prometido a ele, tinha de finalizar o documentário de qualquer jeito. É importante mencionar e participação da Juliana Kase nesse processo, codiretora do filme. A Juliana começou a gravar comigo na casa do Massao e sua colaboração foi crescendo ao longo do tempo. Devo muito à sensibilidade dela. O resultado da junção dos nossos olhares e do nosso carinho e respeito pelo Massao estão no filme.

Onde as pessoas podem assisti-lo?

O Massao era um editor de tiragens pequenas. Condizentemente, o filme sobre ele não é um blockbuster. Acredito que para os donos de salas de cinema, as salas mais difíceis de encher sejam as muito grandes e as muito pequenas. Se algum dono de cinema quiser, o filme está à disposição para ser lançado em alguma sala pequena. Acho que é esse o perfil. O filme estreou na última Mostra Internacional de São Paulo, em 2015, e vai ter duas projeções especiais na Biblioteca Mário de Andrade em março deste ano (uma na próxima segunda 14/3 e outra 30/3). Por enquanto, é só. Estou batalhando verba para legendas em inglês para mandar para um festival no exterior. E espero que ele vá para a televisão.

Não vai ter DVD?

Por enquanto, acho difícil. Não só porque o filme não é um blockbuster, mas porque o próprio formato está caindo em desuso. A última importante locadora de São Paulo fechou as portas de sua derradeira unidade há pouco tempo. O filme ainda tem a possibilidade de passar em alguns festivais. Quando for para a televisão – como espero que vá –, penso em financiar uma pequena tiragem de DVDs com o dinheiro desse licenciamento. Devo, inclusive, cópias do filme aos apoiadores do financiamento coletivo. Portanto, será um genuíno esquema de produção de home movie. Não nos esqueçamos que nos Estados Unidos e Europa esse tipo de cinema “artesanal” tem conquistado importância e respeito. Por exemplo, vi recentemente o belíssimo filme de Laurent Cantet, Retorno a Itaca, inteiramente filmado sobre uma laje de um prédio em Havana. Excelente roteiro, excelentes atores, resultado, um excelente filme de baixíssimo orçamento. Enquanto isso, no Brasil, onde sequer temos uma indústria cinematográfica de fato, sonhamos com grandes produções para um dia ganhar um Oscar. Uma coisa não exclui a outra, veja o cinema francês. O que não podemos fazer é asfixiar produções pequenas, sobre personagens pouco conhecidos e temas raros mas relevantes para nossa cultura – como edição de livros no Brasil –, e concentrar toda a atenção e financiamento em produções calcadas em filmes e séries americanas industriais.

Pretende fazer mais documentários sobre o mercado editorial?

Os temas não surgem de maneira tão lógica e programada. Pelo menos não no meu trabalho autoral. É preciso que algo aconteça, um coup de foudre, como dizem os franceses. Essa paixão pode se dar com qualquer coisa ou ser que existe no mundo. Quando vira obsessão, estou pronta pra fazer o filme. Minha última paixão foi por uma região, a Umbria, na Itália. Fui pra lá no ano passado e gravei pelo prazer de gravar, sem objetivo definido. Depois de quase um ano de decantação, o roteiro me veio agora e estou escrevendo. Espero ter um documentário pronto em menos de um ano. Será, mais uma vez, um filme feito sem patrocínio, pois duvido que alguém queira pôr dinheiro num ensaio fílmico sobre a Umbria. Mas farei, por achar que é importante fazer. Penso que é isto que me liga aos meus personagens, como o Flávio Rangel e o Massao Ohno: o prazer de fazer o que amamos, amar o que fazemos e o entendimento de que faríamos aquilo de qualquer maneira. O Eduardo Coutinho disse uma vez que a gente nascia e morria, e viver era tentar dar sentido ao que acontecia entre esses dois momentos. Para mim, fazer filmes como o do Massao é o que dá sentido à minha vida. Se tiver patrocínio, verba, apoio etc. melhor, claro. Se não tiver, dou um jeito. Como dizia o Massao, só poeticamente é possível viver. Não existe patrocínio para isso. Depende de nós e mais nada.

Clique aqui e acesse a página do documentário no Facebook.

Cindy Leopoldo é graduada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cursou o Yale Publishing Course em 2015. Trabalha em departamentos editoriais há mais de uma década. Atualmente é gerente de edições digitais da Intrínseca no Rio de Janeiro, sendo responsável pelos e-books da editora carioca. Escreve quinzenalmente, só que não, para o PublishNews. Sua coluna trata do mundo que existe do lado de dentro das editoras. Mais especificamente, dentro de seus departamentos editoriais. Acesse aqui o LinkedIn da Cindy.

[10/03/2016 10:47:17]
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