A vez e a hora de uma nova Bienal de São Paulo.
PublishNews, Henrique Farinha*, 25/08/2014
O modelo de Bienal, eternamente criticado pelos profissionais do livro, já deu

Frequento a Bienal de São Paulo desde os anos 1970. No começo, apenas como mais um dentre tantos visitantes. De 1996 para cá, como profissional do livro. Desta vez, no entanto, ao me deparar com o mesmo ambiente de anos, que é alvo de críticas – minhas e de muitos outros – também há tempos, veio-me a sensação de que está mais do que na hora de mudar. Que algo precisa ser feito a respeito, e rápido.

 

As fotos que apresento junto a esse artigo são amostras da atmosfera de improviso e total falta de profissionalismo que rege a Bienal de São Paulo. E do porquê de, mais uma vez, a Editora Évora, com seus dois selos (Évora e Generale) e da qual sou presidente e fundador, não ter estande no evento. Optamos por colocar nosso catálogo em estandes parceiros. A Évora e muitas outras editoras, inclusive grandes, como a Objetiva. É a via mais fácil, que extingue o risco e coloca algum dinheiro no bolso, mas que, por outro lado, nos mostra acomodados, satisfeitos com o pouco que temos e a léguas de aproveitarmos adequadamente as oportunidades latentes em um cenário em mutação. Talvez meu atual excesso de peso, mais do que descuido com a saúde, seja um símbolo em âmbito pessoal dessa acomodação. Vou pensar mais a respeito... Distribuidores?! Alguém os viu por aí? Estão quase em extinção no evento. A maioria só apareceu como visitante, de passagem, na sexta-feira.

 

A apresentação pífia do cartaz de uma das fotos (como se fosse um grande negócio comprar montes de encalhes, boa parte de origem e qualidade extremamente duvidosas) e o improviso para tentar concluir a transação via cartão ser aprovada pela operadora (além dos funcionários tentando desesperadamente obter sinal pelos corredores, vejam só o cabo de vassoura com uma garrafa de plástico na ponta e a máquina dentro, é o fim!!!...) mostram que esse modelo, eternamente criticado pelos profissionais do livro, já deu. E da pior forma, com queda enorme no número de expositores. Estou convicto de que, mais uma vez, os dados oficiais citarão a presença de cerca de 750 mil visitantes, pouco mais ou menos. Como se isso fosse bom... A verdade é que a visitação não cresce há anos, numa área metropolitana de praticamente 20 milhões de habitantes, sem contar sua influência regional no estado. É um número cerca de 10% maior do que o da Bienal do Rio, cuja área metropolitana tem pouco mais da metade da população da Grande São Paulo. O mercado paulista (falando do estado) representa entre 40% e 60% das vendas anuais, dependendo do segmento editorial. E o mercado do estado do Rio, quanto significa? Por volta de 10% do total. O que fica dessa análise é que o desempenho da Bienal de São Paulo está muito aquém da carioca se compararmos os respectivos pesos dos estados na indústria e, a grosso modo, o potencial de consumo. E não que eu ache a Bienal do Rio um primor, muito pelo contrário. Padece de males parecidos e alguns particulares. A meu ver, falta um calendário integrado de eventos e ações no qual a Bienal de São Paulo seja tida e havida como o ápice. Aguardamos para falar dela quando está para acontecer. Nas minhas conversas com pessoas fora do nosso mercado, notei que poucas sabiam da Bienal. E as que sabiam me disseram que ouviram, leram ou viram alguma coisa nesta semana. Isso está longe de ser suficiente em uma cidade com crescentes alternativas.

 

A todo esse desrespeito inaceitável com o livro como produto, bem como com os expositores que pagaram caro por seus espaços, soma-se o total descaso com o público, tratado como gado. E quem como gado se sente, como gado se comporta. Lixo atirado no chão, trombadas em profusão, falta de educação como regra. Quem não oferece conforto e organização não pode exigir comportamento condizente, tampouco esperar boa vontade. A irritação vira um estado de ânimo predominante em diversos momentos. Estabelece-se um padrão nivelado por baixo, conhecido e reconhecido em outros grandes eventos de diferentes áreas no país. Ser maltratado vira coisa “natural”. Como se isso não bastasse, enfrentamos os problemas de sempre, que jamais são corrigidos, inerentes ao decadente e ultrapassado Anhembi e/ou à organização - acesso dificílimo, estacionamento a preços indecentes, credenciais que não funcionam (troquei a minha, e ainda assim não funcionou), ar-condicionado inexistente e calor beirando o insuportável, falta de acesso apropriado a deficientes - eu, que estava de muletas por conta de um tendão rompido no pé esquerdo, sofri um bocado e paguei muitos dos meus pecados na sexta-feira... -, praça de alimentação caríssima e de qualidade inversamente proporcional, celulares e internet inoperantes, confusão no processo de carga e descarga etc.. E, como ato supremo para coroar a insatisfação que não era só minha, diminuíram a largura dos corredores em cerca de um metro para que todos os expositores coubessem num só pavilhão, o que só serviu para aumentar a “muvuca”. No domingo, desisti das muletas e manquei como deu. Usá-las era absolutamente inviável, tamanho o aperto. Tomei safanões variados, meu pé (sim, o machucado...) foi pisado, chutado e, para completar, fui atropelado por uma cadeira motorizada... Tratamento completo, com direito a requintes de crueldade!

 

Nós, profissionais do livro, continuaremos a criticar eternamente esse modelo, sem nada fazermos, ou vamos de fato arregaçar as mangas para transformá-lo?!... Vamos nos contentar em "detoná-lo" ou trabalharemos para criar um novo, interessante para todos? Eleições para a CBL ocorrerão em fevereiro de 2015. Votarei no(a) candidato(a) que, dentre outras coisas, exponha proposta coerente e queira virar a Bienal de cabeça para baixo, inserindo-a definitivamente no século XXI. Estou disposto a ajudar e acredito que muitos também estão, porém é imprescindível haver compromisso e a implementação imediata do plano proposto, mediante a formação de um grupo executivo para levá-lo adiante a partir da posse da nova diretoria. Não dá para deixar o debate para depois, muito menos a execução do plano de ação. E que fique claro: não adianta debitar os problemas e incongruências unicamente na conta da entidade. Chegamos a esse estágio por jamais priorizarmos a discussão, revisão e realização de uma nova Bienal. Nós a aceitamos como ela é, quase como a nossa “cláusula pétrea”, bem como as raras emendas incorporadas a conta-gotas.

 

O interesse é nosso, cabe-nos cobrar e, acima de tudo, agir. Chega de comodismo

 

* Economista formado pela FEA-USP, com pós-graduação em marketing e administração geral pela FGV-SP. Antes do mercado editorial, fez carreira no varejo por dez anos. No mercado editorial, foi Diretor Editorial Universitário e de Publicações Eletrônicas na Editora Saraiva. Foi também Diretor-Geral na Editora Positivo (livros), Country Manager na Elsevier Brasil e Diretor-Geral na Editora Gente. É fundador, presidente e publisher da Editora Évora.




















[25/08/2014 00:00:00]
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