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Novos modelos de distribuição: o case da Paperight
PublishNews, 15/03/2012
Paperight: um modelo para reduzir o xerox

Um novo serviço oferecido na África do Sul propõe mudar a maneira como os livros são distribuídos nos países em desenvolvimento. A Paperight oferece um sistema que “converte qualquer loja com qualquer tipo de impressora em uma livraria sob demanda”. Qualquer ponto de venda pode se registrar no paperight.com para obter conteúdo editorial pronto para ser impresso e vendido. A Paperight foi criada por Arthur Attwell, dentro da consultoria Electric Book Works, e agora é financiada pela Fundação Shuttleworth. Confira a entrevista que fizemos com ele sobre essa iniciativa. 

Octavio Kulesz: Como a Paperight funciona?

Arthur Attwell: As copiadoras já são, de fato, distribuidoras de livros. Elas atendem uma enorme demanda por livros no mundo todo – mas fazem isso de maneira informal e, com frequência, ilegalmente, por meio do xerox. Nós estamos incluindo as copiadoras no mercado formal, ao tornar o trabalho delas legal e fácil ao mesmo tempo. Elas vão gerar mais vendas com impressão e as editoras vão receber os direitos referentes às cópias. Nosso site oferece um catálogo de livros cada vez maior, que as lojas podem licenciar e imprimir para seus clientes com um simples clique. E os editores obtêm receita com cada licença vendida.

OK: Qual a diferença de preço entre uma impressão da Paperight e um livro tradicional?

AA: Na África do Sul, as impressões da Paperight são geralmente 20% mais baratas do que o preço de capa do livro tradicional. Em cada país, os royalties e os custos de edição e impressão do livro vão variar. Se, por um lado, em alguns lugares não conseguimos ter preços competitivos, chamamos atenção para o ganho de acessibilidade: uma vez que qualquer negócio pode ser um ponto de venda, reduzimos o custo total de comprar livros – que pode incluir o deslocamento até uma livraria, o risco de a obra estar esgotada, a espera por uma entrega, o tempo de compra pela internet ou mesmo a necessidade de ter um cartão de crédito para fazer a encomenda.

OK: Quanto as editoras ganham em relação ao modelo tradicional?

AA: Isso depende das editoras, pois elas definem sua remuneração. Enxergamos essa questão de duas formas. De um lado, trata-se de um acordo de licença por reimpressão, e tradicionalmente esse tipo de contrato envolve royalties de 5% a 10%. Adoraríamos que os editores fixassem sua remuneração entre 5% e 10%. Por outro lato, em lugares onde a Paperight vai vender para os mercados convencionais das editoras, elas precisam ganhar o mesmo que ganhariam com a edição convencional – neste caso, descontados a parte do vendedor e os custos de impressão, distribuição, estocagem e devoluções, as editoras costumam ficar com de 25% a 30% do preço de capa. Portanto, uma remuneração entre 25% e 30% do preço de capa é razoável.

OK: O que acontece se os pontos de venda imprimirem cópias sem pagar por elas?

AA: Sabemos que isso vai acontecer, da mesma forma que ocorre com os livros convencionais. A verdadeira pergunta é como reduzir esse problema e aprender com ele. Abordamos a questão de duas formas: primeiro, tentamos assegurar que as lojas saibam que fazer cópias sem autorização é ilegal. Em muitos casos, a raiz do problema é simplesmente a ignorância. Em segundo lugar, tentamos criar mecanismos para rastrear as cópias produzidas. Cada página ganha uma marca d’água com os detalhes da licença e da transação, que incluem uma URL abreviada. Quando alguém visita essa URL, podemos mapear quais documentos estão sendo lidos e assim detectar possíveis problemas de cópias não autorizadas. Podemos trabalhar com as editoras para que essas URLs remetam a endereços de valor, interessantes, de forma que os clientes queiram acessá-los. Certamente, suspenderemos qualquer loja que faça mau uso do serviço.

OK: Como vocês controlam a qualidade das impressões?

AA: Não controlamos. A qualidade fica a cargo da loja e dos clientes, dependendo dos custos e da capacidade de cada uma. O que importa é: estamos entregando o conteúdo sempre que alguém precisa dele?

OK: Que livros a Paperight oferece?

AA: Começamos com mais de mil títulos que, na maioria, estão em domínio publico ou têm licença aberta. Temos sido cuidadosos em nossas escolhas, focando em obras de alta qualidade educativa, de saúde e de autoajuda. No nosso blog, publicamos um comunicado muito transparente sobre nossa seleção. Atualmente estamos trabalhando com várias editoras comerciais para agregar o conteúdo delas este ano, e também estamos contatando novas editoras todos os dias.

OK: Mas os e-books não vão substituir a necessidade de impressão?

AA: Essa é uma ideia muito sedutora. Nos mercados ricos, isso certamente vai acontecer. Mas em áreas mais remotas, ou no caso de populações que não possuem dispositivos ou conexão de internet em suas casas, os e-books não resolvem o problema da acessibilidade. E se, por um lado, os telefones celulares funcionam muito bem para certos tipos de conteúdo, por outro não dá para estudar engenharia mecânica ou arquitetura numa tela de celular. Mesmo que o custo da informática caia, sempre haverá pessoas que precisam de uma cópia impressa.

OK: Como as pessoas sabem quais livros a Paperight disponibiliza?

AA: Até que o nosso catálogo para telefone celular esteja pronto, no fim deste ano, trabalhamos para que as lojas e instituições de ensino informem seus clientes sobre os livros de que dispomos. Fornecemos um grande pôster impresso com os 50 livros mais procurados para as lojas que quiserem um. Para as escolas, enfatizamos que nosso catálogo inclui as provas de exames nacionais passados, por exemplo, e informamos as universidades sobre os vários clássicos que oferecemos.

OK: E como as pessoas encontram as lojas da Paperight?

AA: Estamos providenciando um mapa para colocar no nosso site. Nas ruas, dá para ver o logo ou o pôster da Paperight – principalmente na Cidade do Cabo, onde estamos promovendo o serviço com força. Também contamos com a indicação de clientes que querem comprar os livros da Paperight nas lojas que frequentam. Conte-nos sobre a loja e nós vamos entrar em contato com ela para apresentar o serviço, em qualquer lugar do mundo. 

OK: Há outras empresas fazendo o mesmo?

AA: Até onde sabemos, não. Seria ótimo ter concorrência, isso ajudaria a esclarecer as pessoas sobre o conceito do negócio.

OK: Como surgiu a ideia da Paperight?

AA: Na Electric Book Works, em 2008, fizemos dois projetos de pesquisa sobre a impressão sob demanda e seu potencial impacto na África. Resumindo, descobrimos que a forma como as editoras estavam usando a impressão sob demanda não resolveria os problemas mais graves da distribuição de livros na África. As gráficas eram grandes, concentradas nas cidades, e, embora impressionante, a instalação e o funcionamento da Espresso Book Machine eram muito caros para a maioria dos negócios. Precisávamos de uma solução que utilizasse a infraestrutura já existente: impressoras a laser comuns, internet de menor capacidade e mecanismos de distribuição de e-books que os editores já estavam desenvolvendo. Por sermos uma consultoria de produção de e-books, estávamos bem posicionados para transformar tudo isso num modelo de negócios.

OK: Aproveito para perguntar sobre alguns temas ligados à África do Sul. Alguns estudos recentes sustentam que a velocidade da banda larga móvel no país é bastante alta, inclusive em comparação com a rede dos Estados Unidos. Como é isso?

AA: Há muitas opiniões sobre esse fato, mas a rapidez da internet é essencialmente determinada pela demanda por dados. Como muitos países em desenvolvimento, o uso de telefonia celular ultrapassa de longe o de telefone fixo. E, junto com a demanda por transmissão de voz, vem a demanda por transmissão de dados. Para manter participação de mercado, as operadoras de telefonia celular se esforçaram para competir com a velocidade oferecida pela Telkom, que tem o monopólio sobre a telefonia fixa no país. Mas isso vale apenas para a população urbana e abastada da África do Sul, que representa talvez um quarto da população total. 

OK: Encontramos na África do Sul várias iniciativas – como M4Lit, Fundza e Bozza – focadas na difusão da leitura digital. Em geral, esses projetos chegam ao resto do continente? E o que acontece com a Paperight nesse sentido?

AA: Não que eu saiba, mas há muita gente tentando. Os leitores tendem a ser muito localizados, e todo o entorno da leitura – as listas de best-sellers, os clubes de livro, as campanhas promocionais – dificilmente se transfere de região para região. O que complica ainda mais o quadro é que não existe como fazer pagamentos on-line ou pelos celulares entre a maioria dos países. Por isso, é difícil montar modelos de negócio “pan-africanos”.

Mas difícil não significa impossível. Na Paperight, estamos absolutamente comprometidos com a construção de um mercado internacional que funcione em qualquer lugar da África. Em alguns casos, por exemplo, estamos providenciando transferências de dinheiro pela Western Union – apesar da inconveniência e das taxas – para podermos trabalhar com lojas de outros países africanos.

OK: Nos últimos anos, você viajou pelo mundo todo e esteve em contato com dezenas de grandes empresas. Sendo um expert em assuntos digitais, você poderia estar trabalhando em Nova York, Londres e muitos outros lugares onde a infraestreutrura de tecnologia é altamente desenvolvida. Por que você decidiu ficar na Cidade do Cabo e entrar de cabeça em um projeto low tech?

AA: Eu amo trabalhar na África, porque existe um potencial infinito e muito pouca concorrência nesse campo. Mas o que me motiva é o fato de que é profundamente errado que bilhões de pessoas não tenham acesso aos livros porque o custo de adquiri-los é tão alto. Como editores, criamos uma indústria que transforma o conhecimento humano em um produto caro e inacessível, e isso precisa mudar.

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

[14/03/2012 21:00:00]
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