Quase um século, Gastão
PublishNews, 02/03/2012
Quase um século, Gastão

Isso de nos aproximarmos de clientes que viram amigos se repete – tanto quando se trabalha num botequim, num salão de barbeiro e até mesmo quando se é um terapeuta. Numa livraria, ficamos conhecendo o gosto das pessoas para leitura, sabemos das suas crenças e manias, das devoções e preconceitos.

Quando eu tinha vinte e poucos anos me chamou atenção um cliente. Ele tinha dois óculos de grau, um no rosto, no lugar de sempre. O outro ficava pendurado na orelha, balançando como um trapezista sem rede. O homem deveria ter uns 80 anos. Suas leituras eram de cunho científico ou boa literatura. Nunca pedia sugestão.

Fiquei sabendo que era artista plástico e que mexia com café. Santos tem essa tradição de exportar o ouro verde. Numa tarde qualquer ele me convidou para uma visita a sua casa, mais precisamente a sua biblioteca. Saí da livraria e caminhamos juntos uns três quarteirões, sem pressa – a bengala dava a cadência. A casa, um sobrado simples, com a fachada escondida por árvores e um jardim selvagem, dava um ar de esquecimento. Gastão pediu para que eu me sentasse numa cadeira, de frente para a biblioteca. Voltou com muitos trabalhos artísticos, arte abstrata. Perguntou de qual eu havia gostado. Respondi que de todos. Ele me disse que quem gosta de tudo não conhece nada. Começou de novo a desfilar os trabalhos, eu tinha que me arriscar e falei pelos cotovelos.

Daí nos concentramos na biblioteca. Nunca tinha visto nada igual. Eram fileiras e fileiras de capas brancas. Gastão tinha um método de organizar seus livros, encapava todos com papel pautado, chamado almaço, lembra? Nas lombadas, duas informações: quando e onde tinha adquirido a obra. Se percorrêssemos toda a coleção na sua ordem, conheceríamos as suas ideologias e gostos ao longo da vida.

Gastão era um tanto recluso, não gostava de ir a eventos. Era um bom amigo do maestro Gilberto Mendes, mas faltou ao lançamento de seu livro. O único que me lembro de ele ter ido foi a tarde de autógrafos do cartunista Fernando Gonzales, criador do Níquel Náusea. Eles conversaram animadamente por uma meia hora.

Gastão sempre me perguntava como iam os negócios, e também me esculhambava por eu não desenhar, não praticar o desenho.

Perdi esse amigo especial recentemente, ele se foi à beira dos 97 anos. Morreu em casa, com os filhos por perto, longe de invasões cirúrgicas e sofrimentos hospitalares.

Os negócios estão melhorando, Gastão. E voltei a desenhar, meu amigo. Obrigado pela companhia, sentirei a sua falta.

Dono da livraria Realejo na cidade paulista de Santos, José Luiz Tahan gosta de ser chamado de "livreiro". Acha mais específico do que "empresário" ou "comerciante", ainda mais porque gosta de pensar o livro ao mesmo tempo como obra de arte e produto. Zé Luiz tem mais de 20 anos dedicados a este ofício, o de vendedor de livros. Pela ordem, gosta de desenhar, ler, escrever e jogar futebol.

Sua coluna tenta pensar alto algumas questões que encasquetam o livreiro Zé Luiz e que ele espera que, pelo menos algumas delas, também encasquetem os nossos leitores. Em outros momentos, esta coluna é uma espécie de caderno de memórias vividas no balcão, com “causos” e passagens de quase duas décadas de conversas entre um livreiro e estas grandes figuras – os leitores.

[01/03/2012 21:00:00]

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