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A história de uma livraria e os circuitos da cultura impressa
PublishNews, 09/09/2011
A história de uma livraria

Em tempos de crescente virtualização do mundo dos livros e das livrarias, a leitura de Livraria ideal: do cordel à bibliofilia (Edusp/Com-Arte), do historiador e professor de comunicação Aníbal Bragança, mostra a importância que um livreiro e uma única livraria podem ter como irradiadores de diversos círculos culturais e literários.

Livraria ideal conta a singular trajetória de Silvestre Mônaco, imigrante italiano que começou como engraxate e se tornou o mais importante livreiro de Niterói e, ao mesmo tempo, recompõe as inúmeras ramificações que se formaram em torno da livraria. O que é encantador – histórica e editorialmente falando – neste livro é não apenas a pesquisa sobre a trajetória de uma livraria e seu fundador (a partir de escassas fontes documentais e orais), mas como por meio da trajetória de uma única livraria se pode conhecer décadas de vida cultural, intelectual e social de uma cidade e os circuitos de produção, circulação e leitura de livros, dos mais populares aos eruditos, mostrando ainda sua relação com a expansão do ensino e a formação da indústria cultural e do mercado editorial. Vender livros, mostra o autor, pode ser parte de uma complexa e densa rede social, cultural e econômica, e não apenas uma função contábil ou digital.

Silvestre Mônaco nasceu em Sacco, província de Salerno, na Campania, Itália, e emigrou aos 15 anos, em 1922, a Niterói, onde o pai, lavrador na Itália e também imigrante, já trabalhava como engraxate. Este era um dos ofícios que se apresentavam na cidade “para o imigrante sem poupança nem habilitações específicas”, profissão que “com os novos hábitos de higiene e elegância está em expansão. Todos, do dândi ao roceiro em dia de festa, frequentam a cadeira de engraxate para trazer sempre brilhantes os seus calçados de couro. Até no dia-dia as classes populares os tamancos vão sendo substituídos pelos sapatos”, escreve Bragança.

Mônaco começou como engraxate, depois vendeu bilhetes de loteria, foi apontador do jogo do bicho, envolveu-se na boemia no Rio de Janeiro (lembrando, com Oswald de Andrade, que o boêmio era o contrário do burguês...), acabou preso por “contravenção” e, por fim, voltou a Niterói para retomar o trabalho com o pai em uma loja/engraxataria.

A literatura de cordel marcou o início da relação de Mônaco com a comercialização de livros. Em meados dos anos 1930 ele começou a vender publicações de cordel junto à cadeira de engraxate. Os livros ficavam suspensos em barbantes presos em quadros de madeira pendurados na parede ou nas laterais das cadeiras de engraxate.

É aqui que entra na história outro personagem singular, Savério Fitipaldi, que trabalhava na Livraria Quaresma e montou uma editora caseira de livros populares que eram vendidos através dos engraxates, para “alcançar os novos leitores que surgiam com a urbanização e a expansão do ensino; e, especialmente com os livretos de cordel, buscava os migrantes que chegavam aos grandes centros.”

Através dos engraxates, escreve Bragança, “os livros eram colocados em locais de passagem ou de frequência desse público, como as proximidades de bares, feiras e, especialmente, nos entroncamentos rodoviários, hidroviários ou ferroviários”. Em 1920 Fitipaldi adquiriu a Livraria Carioca, no Rio de Janeiro (depois Livraria João do Rio), e publicou mais de 600 títulos populares (a maioria de cordel), entre eles títulos como O manual dos namorados e Secretário poético ou Coleção de poesias de bom gosto, próprias para serem enviadas... em dias de aniversários, além de ter sido o primeiro editor de Catulo da Paixão Cearense na Biblioteca dos trovadores. Muitas das edições de cordel eram produzidas no Nordeste e enviadas ao Rio de Janeiro.

Os leitores eram, em geral, pequenos funcionários, comerciários, operários navais, pescadores e fregueses do mercado, trabalhadores da construção, muitos deles migrantes. E parte destes leitores, recém-chegados à cidade, estava em trânsito da cultura oral à escrita e recebia uma difusa pressão da cultura letrada; esferas íntimas da vida, como o comportamento nas mais diversas situações, do trabalho ao namoro, eram reguladas nas cidades por códigos que era necessário aprender.

Foi nesta época que o próprio Silvestre parece ter adquirido o hábito da leitura, embora não fosse necessário ler e conhecer os livros para vendê-los junto à cadeira de engraxate. Além de comércio sem grandes riscos, era o que lhe dava mais prazer como trabalho; a identidade cultural letrada era um tanto idealizada em meio ao mosaico de identidades brasileiras. Conforme Bragança, “muitas das histórias de cordel não eram estranhas ao imaginário de Silvestre, pois foi entre os camponeses italianos do Sul que por mais tempo, na Europa, se prolongou a existência do comércio desses livrinhos. E, dentre as belas histórias de aventuras, heroísmo, safadices e moralidades, vários temas têm suas matrizes na literatura popular europeia”.

Em pouco tempo o comércio de livros da engraxataria dos Mônaco ganharia uma seção de sebo, incluindo revistas ilustradas que começavam a se tornar importantes nesta época, depois também gibis e livros escolares, que ficavam descartáveis devido às mudanças de currículos. Localizada em uma rua central da cidade, e próxima a colégios, em 1939 a loja já tinha estantes de livraria.

Mas foi em 1946 que Silvestre inaugurou a Livraria Ideal – mantendo ainda as cadeiras de engraxate e uma seção de papelaria (e tendo um sócio, Emilio Petraglia). E ele passou a se tornar também um alfarrabista (que vende livros velhos, raros e antigos) em uma animada vida literária local, com lançamentos de livros, imprensa literária, as ações do Grupo de Amigos do Livro e uma série de atividades correlatas, inseridas na vida cultural da cidade e do país, contextos que Aníbal Bragança recompõe com muita vivacidade, mostrando os diversos círculos e circuitos da cultura.

Em pouco tempo, a Livraria Ideal se tornou a livraria mais importante de Niterói e por ela passaram de poetas a governadores, de ginasianos a banqueiros, muitos dos quais rendem tributo a Silvestre – para quem o mais importante era a participação na formação escolar ou cultural dos frequentadores, as trocas intelectuais e a possibilidade de encontrar um título buscado ou participar do trabalho de poetas e todo gênero de estudo, e ele vendia sem qualquer preocupação com o retorno breve ou a longo prazo.

Livraria ideal: do cordel à bibliofilia (originalmente um mestrado na ECA-USP) integra a coleção Memória Editorial da Edusp e o autor, Aníbal Bragança, é professor da Universidade Federal Fluminense, coordenador do Núcleo de Pesquisa do Livro e da História Editorial no Brasil e um precursor da notável produção nesta área que vem se realizando nos últimos anos e que tem na coleção da Edusp e publicações da Com-Arte um pólo fundamental.

Mônaco Silvestre faleceu em 1973. Citando Simone Weil, Aníbal Bragança lembra que “o ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade”. É com esta convicção que ele conta a trajetória singular de Mônaco Silvestre e os detalhes de uma trama que, por meio dos livros, da leitura, das livrarias e de diversos círculos culturais no entorno, formou uma comunidade de trabalho e solidariedade, que humaniza as pessoas e permite que elas criem uma verdadeira rede social.

Roney Cytrynowicz é historiador e escritor, autor de A duna do tesouro (Companhia das Letrinhas), Quando vovó perdeu a memória (Edições SM) e Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial (Edusp). É diretor da Editora Narrativa Um - Projetos e Pesquisas de História e editor de uma coleção de guias de passeios a pé pela cidade de São Paulo, entre eles Dez roteiros históricos a pé em São Paulo e Dez roteiros a pé com crianças pela história de São Paulo.

Sua coluna conta histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narra episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

[08/09/2011 21:00:00]
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